A procura de famílias brasileiras por trusts cresceu mais de 100% no intervalo de um ano, segundo Maurício Carmagnani, Head of Brazil da JTC Group. O movimento ocorre em meio à reorganização das estruturas mantidas no exterior após a aprovação da Lei 14.754, que estabeleceu novas regras para a tributação de aplicações financeiras, entidades controladas e trusts fora do país.
“Não diminuiu a procura por estruturas. O aumento foi na procura por trusts, que, de um ano para cá, cresceu mais de 100%”, afirmou Carmagnani durante painel no Brasil Family Office & Investors Summit 2026.
Segundo o executivo, a mudança tributária reduziu a atratividade de fundos offshore utilizados por pessoas físicas e levou parte das famílias a migrar para holdings patrimoniais. O custo de manutenção aparece como um dos principais fatores nessa escolha.
“Antigamente, o fundo era muito mais utilizado. Só que, com a tributação desses fundos no exterior, não faz sentido pagar US$ 20 mil por ano para ter um fundo offshore, contra uma estrutura de holding que pode custar US$ 3 mil por ano”, comparou.
Na avaliação de Carmagnani, grande parte dos fundos mantidos por pessoas físicas foi convertida em holdings. Alguns family offices, entretanto, conservaram veículos desse tipo para oferecer investimentos internacionais a seus clientes.
Trust ganha espaço na sucessão
Além da questão tributária, o trust vem despertando interesse por seu uso no planejamento sucessório. Nesse tipo de estrutura, o patrimônio é transferido a um terceiro, o trustee, que passa a administrá-lo de acordo com regras definidas em benefício de determinadas pessoas ou objetivos.
Carmagnani reconhece que a transferência formal dos ativos ainda provoca resistência entre clientes brasileiros. “O brasileiro é meio resistente a transferir o patrimônio para um terceiro cuidar, porque depois aquilo não é mais dele. Mas o trust é um veículo milenar, funciona bem e, à medida que as famílias aprendem mais, essa figura deve se difundir bastante”, disse.
O executivo destacou que a estrutura permite registrar antecipadamente como o patrimônio deverá ser administrado ou distribuído. “Você escreve na carta de desejos exatamente o que quer que aconteça no momento do falecimento ou do término do trust. Por conta disso, ele vai ficar cada vez mais popular entre as famílias que querem fazer uma governança e uma sucessão bem-feitas.”
As estruturas mais comuns entre brasileiros ainda estão concentradas no Caribe, especialmente nas Ilhas Virgens Britânicas, Bahamas e Ilhas Cayman. Os Estados Unidos também aparecem entre as jurisdições procuradas para a constituição de trusts.
Segundo Carmagnani, as Private Investment Companies, ou PICs, continuam presentes na arquitetura patrimonial, mas passaram a exigir atenção adicional com contabilidade, substância e obrigações de compliance.
“Quinze ou 20 anos atrás, você montava uma offshore e deixava o banqueiro tocar aquilo como uma extensão da conta bancária. Hoje existem muitas obrigações e regras que precisam ser cumpridas”, afirmou. “Nosso papel ficou mais relevante porque essas estruturas precisam ser administradas por pessoas que saibam o que estão fazendo.”
Estruturas passam a operar em conjunto
Julián Arsuaga, advogado e Business Developer da Investa Trust, observou que as famílias passaram a combinar diferentes veículos em uma mesma arquitetura patrimonial.
“Cada vez percebo mais uma mistura de estruturas. Já não é apenas o trust ou apenas a PIC. Hoje você tem o trust como dono da PIC, a fundação como dona da PIC e outros veículos, como o PPLI”, afirmou.
O PPLI, sigla em inglês para Private Placement Life Insurance, é uma modalidade de seguro de vida privado utilizada em algumas estruturas patrimoniais internacionais. Arsuaga também citou o uso de notas estruturadas e fundações de interesse privado.
Para ele, entretanto, a criação dos veículos precisa estar acompanhada por instrumentos de governança capazes de refletir as decisões tomadas pela família.
“Além de a família ter que conversar, as estruturas têm que conversar entre elas”, disse. “Os acordos feitos no conselho de família precisam ser refletidos nos atos societários e no acordo de acionistas, para que o protocolo familiar ganhe vida jurídica.”
O advogado defendeu que o trabalho comece por um diagnóstico da família, antes da escolha entre holding, trust ou fundação. Esse processo deve envolver fundadores, herdeiros e demais integrantes da família.
“Já vimos estruturas maravilhosas no papel, mas que não têm vida, que não acompanham uma mudança de residência fiscal ou a morte do fundador. É isso que tentamos evitar”, afirmou Arsuaga.
Estrutura internacional deve respeitar regras brasileiras
Eduardo Oliveira, CIO do Veneto Family Office, alertou que a liberdade oferecida por determinadas jurisdições não elimina a necessidade de compatibilidade com a legislação brasileira.
Segundo ele, uma estrutura pode funcionar adequadamente enquanto todos os integrantes da família estiverem de acordo, mas gerar disputas no momento da sucessão caso sua distribuição patrimonial seja incompatível com as regras nacionais.
“Quando existe discordância e a estrutura lá fora não conversa ou não obedece às regras brasileiras, isso pode complicar bastante a distribuição dos recursos”, disse. “Se o patrimônio foi deixado para uma ou duas pessoas, os demais potenciais beneficiários podem entrar na Justiça brasileira.”
Oliveira também ressaltou que não existe uma estrutura sucessória aplicável indistintamente a todas as famílias. Casamentos sucessivos, filhos de diferentes relações, ativos empresariais e herdeiros que vivem em outros países aumentam a complexidade do planejamento.
“Cada caso é totalmente diferente. Há famílias que chegam convictas de que precisam se organizar e decidir o caminho que querem seguir, mas também há famílias que já chegam em conflito”, afirmou.
Complexidade também tem custo
Adrian Herrera, Founding Partner da Privé Legal, defendeu que as famílias evitem arquiteturas excessivamente sofisticadas quando uma estrutura mais simples consegue atender aos mesmos objetivos.
“Às vezes, alguém recomenda sete camadas, sete empresas, uma fundação e um veículo de investimento privado. No fim do dia, você tenta minimizar o impacto fiscal, mas o custo de manter as estruturas pode ser maior do que aquilo que pagaria em impostos”, disse.
Para Herrera, a residência fiscal dos diferentes membros da família deve estar entre os primeiros elementos analisados. O planejamento também precisa ser sustentável ao longo do tempo, considerando que filhos e netos podem adquirir novas cidadanias ou mudar de país.
“O mais simples costuma ser o melhor. Se é básico e funciona, siga essa rota, porque será mais efetivo na execução, mais eficiente em custos e sustentável no futuro”, concluiu.
