O Brasil precisará enfrentar um ajuste fiscal para evitar um cenário de repressão financeira, com juros artificialmente mais baixos e inflação mais elevada. A avaliação é de Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco e ex-diretor de Política Econômica do Banco Central, durante o painel “O Brasil, além das urnas: Tendências econômicas que definirão o próximo ciclo de crescimento”, realizado no evento Inside LatAm: Brasil 2026, da Moody’s na última quinta-feira (30/07).
Segundo Mesquita, o país precisa gerar superávits primários para estabilizar a trajetória da dívida pública. Com juros reais em torno de 7% e crescimento próximo de 2%, o economista estima que seria necessário um superávit primário de aproximadamente 4% do PIB, o que representa um ajuste fiscal de cerca de cinco pontos percentuais em relação ao quadro atual.
“Você tem um ajuste fiscal a fazer de cinco pontos por produto. Esse é um desafio muito grande e ninguém acha que isso vai ser feito da noite para o dia, mas é algo que o Brasil precisa enfrentar em algum momento. Ou não enfrentar.”
Caso esse ajuste não ocorra, Mesquita afirmou que a alternativa será uma forma indireta de estabilizar a dívida por meio da repressão financeira.
“A não-solução implica você trabalhar com a inflação mais alta. Isso é uma forma de você resolver o problema que é extremamente regressiva do ponto de vista social.”
Na avaliação do economista, a inflação mais elevada penaliza principalmente a população de menor renda.
“A inflação mais alta não vai afetar a nós aqui nessa sala. Nem nesse prédio. Vai afetar as pessoas menos favorecidas que não têm acesso ao mecanismo de proteção.”
Dívida e déficit
Mesquita afirmou que o principal desafio da economia brasileira continua sendo a dinâmica fiscal. Segundo ele, embora o país tenha encerrado a pandemia em situação relativamente favorável em comparação a outras economias do G20, a trajetória mudou posteriormente.
“Nós terminamos a pandemia com a dívida abaixo do que ela era antes da pandemia. Pouquíssimos países no mundo, no G20, tiveram esse desempenho.”
Para o economista, a política fiscal adotada desde então ampliou os gastos públicos.
“A classe política, depois disso, aproveitou, entendeu isso, como uma licença para gastar. E temos vindo nessa toada desde então.”
Ele destacou que o Brasil convive com um déficit nominal elevado, próximo de 10% do PIB.
“Você tem um déficit público muito grande. […] É um déficit que caminha para 10% do produto. Se isso não é uma emergência, eu não sei o que é.”
Política monetária segue limitada
Na visão de Mesquita, a política monetária tem atuado em um ambiente difícil porque a política fiscal não contribui para o controle da inflação.
“A política monetária está fazendo o possível. Eu acredito que ela tem sido bem conduzida em uma situação muito delicada, muito difícil, na qual a política fiscal não ajuda.”
Ele observou que as expectativas de inflação permanecem acima da meta em diferentes horizontes, o que mantém o Banco Central em uma posição desconfortável.
“O Banco Central tem sido bastante franco e explícito que ele está desconfortável com a trajetória das expectativas.”
Crescimento abaixo da média mundial
Ao analisar o cenário macroeconômico, Mesquita afirmou que o crescimento brasileiro permanece abaixo do ritmo da economia global. Enquanto o mundo cresce em torno de 3%, as projeções para o Brasil giram perto de 2%.
“Cada ano que passa com o Brasil crescendo 2% e o mundo crescendo 3%, 3,5%, a gente vai ficando menos relevante no contexto global.”
Ele acrescentou que a atividade econômica perdeu força ao longo do ano, apesar do bom desempenho no primeiro trimestre.
“Parece que a economia está aterrissando. E, mesmo assim, o crescimento do ano deve ficar em torno de 2%.”
Eleições alteram o ritmo do ajuste
Sobre as eleições de 2026, Mesquita afirmou que o resultado influenciará a velocidade e o formato do ajuste fiscal, mais do que sua necessidade.
“O que muda com o resultado eleitoral? Velocidade e características do ajuste.”
Segundo ele, temas como revisão de incentivos tributários, tamanho do Estado, política comercial e ambiente regulatório podem variar conforme o próximo governo, enquanto fatores como a rigidez dos gastos públicos, a implementação da reforma tributária e o potencial de crescimento continuarão presentes independentemente do vencedor das urnas.
Para acelerar o crescimento de longo prazo, Mesquita defendeu uma agenda baseada em três pilares: inteligência artificial, infraestrutura e integração comercial.
“O desafio de avançar em três ‘Is’: inteligência artificial, infra e integração comercial.”
