O gestor de portfólio Luke Newman explica por que, em um mercado turbulento caracterizado por maior dispersão, correlações instáveis entre ações e títulos e renovada atenção à proteção contra perdas, as estratégias de retorno absoluto podem oferecer maior resiliência.
A incerteza e o caos favorecem o stock picking
Durante boa parte da era do afrouxamento quantitativo (quantitative easing), os mercados de ações foram moldados por baixas taxas de desconto, liquidez abundante e um conjunto restrito de fatores dominantes de retorno. As ações de crescimento, especialmente as empresas americanas de tecnologia, lideraram a alta dos mercados, enquanto muitos outros segmentos tiveram dificuldade para atrair a atenção dos investidores. Para os investidores com abordagem bottom-up, esse foi um ambiente desafiador: as correlações eram elevadas, a dispersão era baixa e as oportunidades de gerar alfa diferenciado eram mais limitadas.
Esse cenário começou a mudar em 2022, com o retorno do custo do capital, quando os bancos centrais passaram a se afastar de forma decisiva das taxas de juros próximas de zero. Acreditamos que estamos assistindo ao retorno de condições de mercado nas quais as estratégias de ações long/short podem ser mais eficazes. Os investidores também parecem compartilhar dessa visão. As taxas de juros mais elevadas trouxeram de volta o custo do capital, tornaram os fundamentos das empresas mais relevantes e ampliaram a dispersão entre “vencedores e perdedores”.
Em nossa avaliação, a dispersão é importante porque oferece mais oportunidades para os gestores ativos. Quando os preços das ações se movimentam em conjunto, torna-se mais difícil construir um portfólio verdadeiramente independente da direção geral do mercado. Quando os resultados das empresas passam a divergir, a seleção de ações (stock picking) pode se tornar um fator muito mais relevante para a geração de retornos.
Olhando além da carteira 60/40
A mudança no cenário de mercado também está levando os investidores a reavaliar os pressupostos tradicionais de alocação de ativos. Historicamente, a carteira 60/40 baseou-se na ideia de que os títulos de renda fixa forneceriam diversificação quando as ações sofressem quedas. No entanto, em um ambiente de inflação mais persistente, juros mais elevados e maior incerteza em relação às políticas econômicas, a relação entre ações e títulos tornou-se menos confiável.

Source: Bloomberg, Janus Henderson Investors analysis, as at 29 December 2025.
Correlation between bonds (US 10-year Treasuries) and equities (S&P 500 Index) returns. Past performance does not predict future returns.
Os choques recentes nos mercados mostraram que ações e renda fixa podem sofrer pressão ao mesmo tempo. Isso aumentou o interesse por estratégias que buscam gerar retornos positivos ao longo do tempo sem depender principalmente do beta de mercado. As estratégias de retorno absoluto não substituem a diversificação, mas podem ajudar a ampliar as fontes de retorno dentro de um portfólio.
Acreditamos que a chave para investir com sucesso não é adicionar complexidade. O importante é identificar estratégias líquidas e transparentes que possam oferecer fontes diferenciadas de retorno sem depender excessivamente de alavancagem ou de ativos ilíquidos. Nesse contexto, as estratégias de ações long/short podem desempenhar um papel relevante, pois investem em mercados acionários listados e conhecidos, mantendo a flexibilidade para expressar tanto visões positivas quanto negativas.
Luke Newman, gestor de portfólio
Evitar grandes perdas pode ser tão importante quanto capturar ganhos
O objetivo de uma estratégia de retorno absoluto não é superar um índice de referência, mas buscar gerar um retorno positivo e consistente ao longo do tempo, com menor sensibilidade aos movimentos amplos do mercado. Uma característica fundamental é que minimizar grandes perdas (drawdowns) não é um objetivo secundário; trata-se de um elemento central do papel que as estratégias de retorno absoluto foram concebidas para desempenhar nas carteiras dos clientes.
Nossa experiência durante crises anteriores ilustra esse ponto. Durante a crise financeira global, a pesquisa da equipe sobre empresas levou gradualmente a uma postura cada vez mais cautelosa em relação a bancos, seguradoras e empresas voltadas ao consumo com elevado nível de alavancagem. Esse posicionamento foi construído ação por ação, e não por meio de uma decisão macroeconômica de cima para baixo (top-down), ajudando a estratégia a atravessar o período com exposição líquida negativa.
A crise da Covid-19 exigiu uma resposta muito diferente. Em vez de um longo período para reposicionar a carteira, os mercados se moveram rapidamente. Conseguimos reagir utilizando nossa abordagem flexível e líquida para reduzir riscos e adicionar posições vendidas táticas em setores como viagens, lazer e empresas expostas ao consumo que provavelmente seriam afetadas pelas restrições da pandemia.
Esses exemplos ilustram uma característica importante de nossa abordagem: embora a visão macroeconômica seja relevante, nosso processo continua fundamentado na análise das empresas. A equipe busca identificar onde os riscos estão aumentando no nível corporativo e, em seguida, utiliza a construção da carteira para refletir esses riscos de forma rápida e eficiente.
Combinando convicções centrais com flexibilidade tática
Acreditamos que um portfólio complementar, composto por posições centrais e táticas, pode funcionar bem. A carteira principal (core book) é formada por posições compradas (long) e vendidas (short) de alta convicção, baseadas em análises fundamentais. Essas posições normalmente se apoiam em um potencial significativo de valorização ou queda, impulsionado por fatores como mudanças na gestão, reposicionamento estratégico, fusões e aquisições, venda de ativos, alocação de capital ou distorções de valuation.
Ao mesmo tempo, posições táticas menores permitem responder mais rapidamente a desajustes de curto prazo, rotações entre fatores e momentos de estresse do mercado. Essas posições costumam ser menores e mais flexíveis, buscando capturar oportunidades temporárias de precificação incorreta, além de serem úteis em períodos de fortes quedas das bolsas.
Os investidores reconhecem cada vez mais o valor da liquidez
À medida que os investidores aumentam suas alocações em ativos alternativos, a liquidez tornou-se um fator cada vez mais importante. As estratégias de mercados privados podem desempenhar um papel valioso nas carteiras, mas também costumam envolver longos períodos de bloqueio (lock-up) e flexibilidade limitada. Em contrapartida, uma estratégia de ativos alternativos líquidos (liquid alternatives) que invista em ações de empresas de grande capitalização listadas em bolsa pode oferecer liquidez diária, ao mesmo tempo em que busca gerar retornos diferenciados. A liquidez permite ajustar rapidamente as exposições, administrar riscos durante períodos de estresse e oferecer aos investidores maior flexibilidade em sua alocação de ativos.
Construindo resiliência com estratégias de retorno absoluto
Nos últimos anos, o ambiente posterior ao afrouxamento quantitativo (quantitative easing – QE) criou um cenário de investimentos mais complexo, mas também um conjunto mais amplo de oportunidades para gestores ativos. Maior dispersão entre ativos, correlações mais voláteis e um renovado foco na preservação de capital reforçam o argumento a favor de estratégias flexíveis, líquidas e verdadeiramente diferenciadas das exposições tradicionais em ações e renda fixa.
Para investidores que buscam construir carteiras mais resilientes, as estratégias de retorno absoluto podem oferecer uma forma de acessar oportunidades específicas de empresas, ao mesmo tempo em que procuram reduzir a dependência da direção geral do mercado. Em um ambiente em que as ferramentas tradicionais de diversificação podem ser menos confiáveis, acreditamos que uma abordagem ativa, combinando seleção de ações (stock picking), controle de risco e liquidez, tende a se tornar cada vez mais valiosa.
Nota: A diversificação não garante lucro nem elimina o risco de perdas.
O S&P 500 (Standard & Poor’s 500) é um índice do mercado de ações que acompanha o desempenho de 500 das maiores empresas de capital aberto dos Estados Unidos.
O Treasury Note de 10 anos dos Estados Unidos é um título de dívida de longo prazo emitido pelo Departamento do Tesouro para financiar as necessidades de gastos do governo americano.
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Definições e Notas de Rodapé
60/40 portfolio: 60% invested in equities and 40% in bonds has long served as a foundation for portfolio construction given bonds’ tendency to offset declines in equities and cushion losses in times of market uncertainty.
Absolute return: A type of investment strategy that seeks to generate a positive return over time, regardless of market conditions or the direction of financial markets, typically with a low level of volatility.
Alpha: The return a portfolio generates above or below its benchmark after allowing for the level of risk taken. A positive alpha suggests the manager has added value.
Balance sheet: A financial statement that summarises a company’s assets, liabilities and shareholders’ equity at a particular point in time. Each segment gives investors an idea as to what the company owns and owes, as well as the amount invested by shareholders.
Beta: A measure of how sensitive an investment is to movements in the wider market. A lower beta means the investment is generally less tied to market direction.
Bottom-up investing: Bottom-up fund managers build portfolios by focusing on the analysis of individual securities rather than broader (top-down) macroeconomic or market factors in order to identify the best opportunities in an industry, country, or region.
Cash flow: The net balance of cash that moves in and out of a company. Positive cash flow shows more money is moving in than out, while negative cash flow means more money is moving out than into the company.
Correlation: A measure of how closely two investments move in relation to each other. If two assets often rise and fall together, they have a positive correlation.
Discount rate: The interest rate set by the US Federal Reserve for short-term loans to banks. During the 2008 financial crisis, the Fed expanded its discount window lending terms significantly to manage its economic challenges.
Dispersion: The extent to which a distribution of data points is stretched or squeezed. If the data points cluster around certain values, then dispersion is low, whereas if they are more spread out, then dispersion is high. For example, dispersion in stocks measures the range of returns for a group of stocks. Higher dispersion opens up opportunities for stock pickers to outperform by selecting the winners and avoiding the losers, given that stock returns are spread more widely on either side of the benchmark.
Diversification: Spreading investments across different assets, sectors or regions to reduce reliance on any single source of return. It does not eliminate the risk of loss.
Downside protection: Downside protection provides a safety net if an investment starts to fall in value. Investors typically mitigate downside risk through long/short strategies or diversification.
Drawdown: The fall in value of an investment from its previous peak to its lowest point over a given period.
Leverage: The use of borrowing to increase exposure to an asset/market. This can be done by borrowing cash and using it to buy an asset, or by using financial instruments such as derivatives to simulate the effect of borrowing for further investment in assets.
Liquidity: A measure of how easily an asset can be bought or sold in the market. Assets that can be easily traded in the market in high volumes (without causing a major price move) are referred to as ‘liquid’.
Long/short: A portfolio that can invest in both long and short positions. The intention is to profit from combining long positions in assets in the expectation that they will rise in value, with short positions in assets expected to fall in value. This type of investment strategy has the potential to generate returns regardless of moves in the wider market, although returns are not guaranteed.
Market beta: The part of an investment’s return that comes from broad market movements rather than from manager skill or individual stock selection.
Net exposure: The difference between a portfolio’s long positions and short positions. It indicates the extent to which the portfolio is positioned to benefit from rising or falling markets.
Post-quantitative easing environment: Refers to the economic environment after central banks stop creating new money to purchase financial assets (like government bonds) and begin tightening. This period is defined by higher borrowing costs, elevated inflation risks, and increased pressures on public finances.
Short position (shorting): Fund managers use this technique to borrow then sell what they believe are overvalued assets, with the intention of buying them back for less when the price falls. The position profits if the security falls in value.
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O desempenho passado não é garantia de retornos futuros. O valor de um investimento e os rendimentos dele decorrentes podem tanto subir quanto cair, e você pode não recuperar o valor originalmente investido.
As informações contidas neste artigo não constituem uma recomendação de investimento.
Não há garantia de que as tendências passadas se mantenham ou de que as previsões se concretizem.

