Após um período de debates no chamado processo de Diálogo Social, o governo do Uruguai anunciou um conjunto de medidas no âmbito da reforma do sistema previdenciário. Entre as iniciativas — que incluem mudanças em comissões, novos afiliados e seguros coletivos, entre outros temas —, uma parece especialmente relevante para as gestoras internacionais: o aumento do limite para investimentos no exterior.
“Considera-se oportuno implementar medidas que permitam alcançar uma maior rentabilidade esperada da poupança dos trabalhadores, por meio de maior diversificação e diferenciação dos investimentos, com uma ampliação gradual dos ativos elegíveis no exterior, mantendo uma regulação rigorosa e supervisão profissional, sujeitas aos mais elevados padrões que caracterizam o atual modelo de investimentos, preservando o financiamento dos investimentos produtivos domésticos”, afirmou o Ministério da Economia e Finanças no comunicado em que anunciou as mudanças.
A regulamentação vigente estabelece que apenas 15% dos fundos de pensão podem ser investidos no exterior, e exclusivamente em títulos soberanos de alta qualidade de crédito e instrumentos emitidos por organismos multilaterais. Todo o restante permanece alocado em ativos domésticos, com forte concentração em títulos da dívida pública uruguaia.
Segundo dados do Banco Central do Uruguai, os fundos de pensão encerraram março de 2026 (último dado disponível) com ativos de 1,085 trilhão de pesos uruguaios (cerca de US$ 27,03 bilhões). Desse total, a exposição a títulos multilaterais do Banco Mundial e a títulos soberanos estrangeiros correspondia a 13,8% do Subfundo Crescimento, 15,7% do Subfundo Acumulação e 11,7% do Subfundo Aposentadoria.
Daqui para frente, resta ao governo transformar as medidas anunciadas em um projeto de lei, que será votado pelo Congresso. Até o momento, ainda não foram divulgados o novo limite para investimentos no exterior nem o cronograma de implementação gradual.
Impulsionando a carteira internacional
O atual regime resultou em carteiras previdenciárias que “apresentam elevada concentração geográfica e, ao mesmo tempo, uma importante concentração por tipo de ativo e por emissor, sendo que mais da metade dos recursos está investida em títulos da dívida soberana uruguaia”, afirmou à Funds Society Agustín Giannini, gerente de Investimentos da República AFAP.
Por esse motivo, e considerando que a dinâmica da renda fixa local está condicionada ao prêmio de risco soberano da América Latina, limitando o potencial de rentabilidade, a diversificação torna-se especialmente relevante. “Um acesso gradual a veículos de investimento globais amplamente diversificados permitiria incorporar ativos com maior potencial de crescimento no longo prazo”, afirmou o executivo, responsável pelos investimentos da maior AFAP do país.
Nesse sentido, o CIO classificou a medida como “totalmente alinhada com a premissa do grupo de trabalho: promover mudanças que tenham impacto positivo nos benefícios dos trabalhadores”.
Na AFAP Itaú, a decisão do governo também foi bem recebida. “Sua implementação seria uma excelente notícia para os participantes”, afirmou Mateo Fernández, gerente de Investimentos da instituição, acrescentando que “uma gama mais ampla de ativos permitiria maior diversificação e, consequentemente, carteiras mais resilientes e com maior potencial de retorno”.
O executivo também ressaltou a importância da implementação gradual, destacando que a ampliação dos limites para investimentos no exterior “deveria ocorrer de forma progressiva e acompanhada de regulamentação prudencial que defina quais ativos serão elegíveis”.
Durante sua apresentação no Congresso FIAP 2026, realizado recentemente na Costa Rica, o diretor-executivo da AFAP Itaú, Ignacio Azpiroz, também defendeu a modernização das regras de investimento. Segundo ele, a proposta é elevar gradualmente o limite de ativos no exterior para algo entre 40% e 50%.
O valor do diálogo e do consenso
Outro aspecto valorizado pelos profissionais da indústria de AFAPs é o fato de as medidas anunciadas serem resultado do processo de Diálogo Social promovido pelo governo, no qual diferentes atores políticos, sociais e institucionais discutiram propostas para a reforma.
Algumas mudanças anunciadas em abril geraram resistência entre as quatro gestoras previdenciárias que atuam no país, como a proposta de restringir o papel das AFAPs exclusivamente à gestão dos investimentos. Por isso, as novas medidas apresentadas pelo governo foram recebidas de forma positiva pelo setor.
“Essas e outras mudanças regulatórias são resultado de uma mesa de diálogo cujo objetivo era melhorar os benefícios para os trabalhadores do nosso país, na qual autoridades e fundos de pensão chegaram a consensos sobre diversos temas que, em sua maioria (como é o caso específico desta medida), ainda precisarão ser ratificados por meio de lei”, comentou Giannini.
Nesse contexto, o executivo ressaltou que “o processo não termina aqui”, indicando que as entidades continuarão contribuindo com sua visão técnica durante a tramitação da reforma no Parlamento.
A avaliação do CIO da República AFAP está alinhada com a posição da entidade representativa do setor. “Após o trabalho técnico realizado em conjunto com o Ministério da Economia e Finanças e o Escritório de Planejamento e Orçamento, as administradoras de fundos previdenciários valorizam as instâncias de diálogo e os avanços alcançados ao longo do processo”, afirmou a Associação Nacional de AFAP (ANAFAP) em comunicado divulgado na semana passada.
“Destacamos especialmente a manutenção da administração das contas individuais e da responsabilidade fiduciária das AFAPs sobre esses recursos como princípios fundamentais do sistema”, acrescentou a entidade.
O setor também destaca que a reforma vem sendo tratada como uma política de Estado, independentemente das mudanças de governo. “Nós partimos da reforma de 2023, que foi realizada por um governo de outra orientação política”, afirmou Azpiroz, da AFAP Itaú, ressaltando a continuidade do processo apesar da alternância de poder.



