Com o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos e a imposição de sua agressiva política de tarifas, o cenário dominante entre analistas e investidores era de que a maior economia do planeta provocaria uma contração significativa do comércio internacional. No entanto, uma análise do BBVA Research apresenta uma conclusão diferente: o comércio global não desapareceu nem se contraiu, simplesmente mudou de origem.
A guerra comercial entre Estados Unidos e China está acelerando uma transformação que já estava em andamento desde a pandemia: a busca por cadeias de suprimentos mais diversificadas, menos dependentes de um único país e com maior proximidade do mercado norte-americano.
De acordo com o estudo do BBVA Research “Qual impacto as tarifas de Trump tiveram sobre as importações?”, conclui-se que as novas tarifas tiveram, sim, um efeito direto sobre os fluxos comerciais: para cada aumento de um ponto percentual nas tarifas aplicadas a um país, as importações norte-americanas provenientes dessa economia diminuíram cerca de 2%.
Mas o dado mais relevante para os mercados e as empresas é que essa queda não significou necessariamente uma redução do comércio total. Os Estados Unidos simplesmente começaram a substituir fornecedores. O resultado é uma redistribuição da participação dentro das cadeias globais de valor.
“As tarifas estão modificando os padrões comerciais mais do que reduzindo o comércio” é a conclusão central que se desprende da análise do BBVA Research. A pergunta agora para investidores e empresas não é apenas quanto comércio é perdido devido às barreiras comerciais, mas quem ocupa o espaço deixado pelos fornecedores afetados.
China perde espaço e México ganha participação
A principal mudança é observada na relação comercial entre Estados Unidos e China. Durante décadas, a China foi a grande fornecedora de produtos manufaturados para o mercado norte-americano. No entanto, a combinação de tensões geopolíticas, restrições tecnológicas e novas tarifas obrigou as empresas norte-americanas a buscar alternativas.
Nesse cenário, o México aparece como um dos principais beneficiários desse processo. O país já era o principal parceiro comercial dos Estados Unidos antes dessa nova etapa de tensões comerciais. Em 2023, superou a China como principal origem das importações norte-americanas e, em 2024, consolidou essa posição.
Dados do U.S. Census Bureau mostram que o comércio bilateral entre México e Estados Unidos alcançou níveis recordes no ano passado, com um intercâmbio superior a US$ 800 bilhões anuais, impulsionado principalmente por setores industriais como automotivo, maquinário, eletrônicos e equipamentos industriais.
O fenômeno responde a diversas vantagens estruturais: proximidade geográfica com os Estados Unidos; integração produtiva no âmbito do Tratado entre México, Estados Unidos e Canadá (T-MEC); custos trabalhistas competitivos; uma ampla rede de fornecedores industriais e capacidade instalada em manufatura avançada, entre outras.
Para o BBVA Research, o México não está apenas capturando o comércio deslocado da China, mas também adquirindo um papel mais estratégico dentro das cadeias regionais de suprimentos. O chamado nearshoring deixou de ser apenas uma expectativa de investimento futuro e começou a se refletir nos padrões comerciais.
América Latina busca aproveitar a nova reconfiguração
A mudança nas cadeias globais não se limita ao México. A fragmentação comercial entre Estados Unidos e China abre oportunidades para diferentes economias latino-americanas, embora com capacidades distintas para captar investimentos.
O México é o caso mais evidente devido à sua integração com os Estados Unidos, mas outros países podem se beneficiar em nichos específicos. Por exemplo:
Costa Rica: este país desenvolveu uma posição relevante na fabricação de produtos médicos e eletrônicos.
República Dominicana: fortaleceu os setores de zonas francas voltados à exportação.
Brasil: pode aproveitar oportunidades ligadas à manufatura, energia e matérias-primas estratégicas.
Chile e Peru: países que possuem uma posição relevante em minerais críticos necessários para a transição energética e tecnologias avançadas, como cobre e lítio.
No entanto, o BBVA Research destacou, em diferentes análises sobre investimentos e nearshoring, que a oportunidade não está garantida, uma vez que a região precisa solucionar obstáculos históricos como infraestrutura logística insuficiente; incerteza regulatória; baixa integração regional; déficit de talentos especializados e custos de energia.
Além disso, a concorrência já não ocorre apenas entre os países emergentes da região, uma vez que o México compete com Vietnã, Índia, Malásia e outras economias asiáticas que também buscam capturar a saída da produção industrial da China.
A IA abre uma nova janela para México e Ásia
Um dos elementos mais relevantes da análise do BBVA Research é que a reorganização comercial não responde exclusivamente às tarifas. Existe outro fator estrutural: a nova economia tecnológica impulsionada pela inteligência artificial.
A explosão da demanda global por infraestrutura relacionada à IA — como semicondutores, servidores, componentes eletrônicos e equipamentos especializados — está modificando novamente os fluxos comerciais. O BBVA identifica que, em alguns produtos ligados a essa nova economia, os Estados Unidos estão reduzindo as compras provenientes da China e aumentando as aquisições de economias como Taiwan e México.
A razão é que as empresas de tecnologia estão buscando fornecedores considerados mais confiáveis sob uma perspectiva geopolítica e logística. O México tem uma oportunidade particularmente relevante em setores como manufatura eletrônica, componentes automotivos avançados, data centers, equipamentos elétricos, bem como semicondutores e montagem especializada.
Embora o México ainda não concorra diretamente com Taiwan na produção avançada de chips, pode capturar etapas importantes da cadeia tecnológica, especialmente manufatura, integração e logística. Para os investidores, essa tendência abre uma leitura diferente: o nearshoring já não está relacionado apenas à transferência de fábricas tradicionais, mas à construção de ecossistemas industriais em torno de setores estratégicos.
As tarifas dificilmente resolverão o déficit comercial dos Estados Unidos
Embora a política tarifária norte-americana busque reduzir a dependência externa e diminuir o déficit comercial, o BBVA Research alerta que o resultado pode ser limitado. A razão é que os países não desaparecem como fornecedores, simplesmente mudam.
A lógica é contundente: se os Estados Unidos reduzem as importações da China, mas aumentam as compras do México, Vietnã ou outras economias, o déficit comercial pode modificar sua composição geográfica, mas não necessariamente desaparecer.
Além disso, as tarifas podem gerar efeitos colaterais como maiores custos para as empresas norte-americanas, pressão sobre os preços ao consumidor, menor eficiência nas cadeias produtivas e possíveis retaliações comerciais. Vários desses efeitos, de fato, já são uma realidade atualmente. É por isso que o impacto final dependerá de quanto as empresas poderão absorver os custos mais elevados e da rapidez com que conseguirão reorganizar suas cadeias de suprimentos.
O ponto relevante da análise do BBVA Research consiste no fato de que a economia mundial não está entrando em uma etapa de menor comércio, mas em uma etapa de comércio mais fragmentado e estratégico. Em outras palavras: a globalização não desaparece, apenas muda de forma.
Durante as últimas décadas, as empresas buscaram principalmente eficiência e custos mais baixos. Agora, também buscam segurança, resiliência e menor exposição geopolítica. Nesse novo cenário, o México e alguns países latino-americanos, em menor medida, partem com uma vantagem relevante.
A combinação de sua localização, do T-MEC no caso específico do México, de sua base industrial e da proximidade com o maior mercado consumidor do mundo os coloca entre os países mais bem posicionados para capturar uma parte do novo mapa comercial. O verdadeiro vencedor da guerra tarifária não será necessariamente quem impuser mais barreiras, mas quem conseguir se tornar o fornecedor alternativo quando as empresas decidirem mudar de rota.



