Durante mais de uma década, a América Latina foi uma região relegada nas estratégias de alocação de ativos dos grandes fundos internacionais. O lento crescimento econômico, a volatilidade política, a depreciação de várias moedas, os problemas fiscais e o desempenho extraordinário das bolsas norte-americanas reduziram significativamente a participação latino-americana dentro dos portfólios globais.
Hoje, o panorama começa a se modificar. Não porque os gestores de ativos tenham decidido voltar massivamente à região, mas porque o novo mapa econômico mundial está obrigando a repensar onde investir nos próximos anos.
A reorganização das cadeias globais de suprimentos, a corrida para garantir minerais críticos para a transição energética, a crescente demanda por infraestrutura para inteligência artificial e a busca por ativos com avaliações mais atrativas estão devolvendo protagonismo a diversos mercados latino-americanos.
“A oportunidade já não é a América Latina como bloco; são histórias nacionais com motores estruturais distintos”, coincidem estrategistas de investimento de diversas instituições financeiras internacionais.
Os Estados Unidos já não concentram todas as oportunidades. Depois de vários anos de fortes ganhos em Wall Street, numerosos gestores consideram que muitas ações norte-americanas são negociadas com múltiplos historicamente elevados. Ao mesmo tempo, o crescimento econômico em várias economias desenvolvidas mostra sinais de moderação, enquanto persistem incertezas associadas às taxas de juros, ao comércio internacional e à geopolítica.
Nesse contexto, alguns gestores de fundos buscam diversificar para mercados que oferecem melhores avaliações, recursos estratégicos e oportunidades ligadas a mudanças estruturais de longo prazo. Não se trata de abandonar os Estados Unidos, mas de complementar os portfólios com regiões cuja correlação seja distinta e cujos motores de crescimento respondam a tendências globais diferentes.
O próprio BlackRock Investment Institute modificou recentemente sua postura geral em relação aos mercados emergentes, reduzindo sua recomendação sobre ações e dívida denominada em moeda forte. No entanto, manteve uma visão favorável para segmentos específicos da América Latina, particularmente aqueles vinculados à infraestrutura para inteligência artificial e ativos reais.
México: o grande beneficiário do nearshoring
Dentro do universo latino-americano, o México continua ocupando um lugar privilegiado. A relocalização das cadeias produtivas consolidou o país como um dos principais receptores de investimento manufatureiro destinado a abastecer o mercado norte-americano.
A fabricação de veículos elétricos, autopeças, dispositivos médicos, semicondutores, equipamentos elétricos e componentes eletrônicos aumentou a demanda por parques industriais, logística, energia e infraestrutura.
Para os fundos internacionais, isso representa oportunidades que transcendem as ações negociadas em bolsa. Também abre espaço para investir em: Fibras industriais; Fundos de infraestrutura; Energia; Centros de dados; Logística e Dívida privada.
Diversas instituições consideram que a força institucional derivada do Tratado entre México, Estados Unidos e Canadá (T-MEC) continua sendo um dos maiores diferenciais do México frente a outros mercados emergentes.
Brasil: juros altos e matérias-primas
O Brasil representa uma história distinta. Seu principal atrativo combina um dos mercados financeiros mais desenvolvidos da região com uma enorme exposição a matérias-primas como ferro, petróleo, agronegócio, celulose e biocombustíveis.
A isso se soma um mercado de renda fixa que continua oferecendo alguns dos maiores rendimentos reais do mundo, situação que tem mantido o interesse de investidores internacionais em títulos soberanos e corporativos.
Se, nos próximos trimestres, o ciclo de redução de juros se consolidar, diversos analistas consideram que a renda variável brasileira poderia se beneficiar de uma expansão nas avaliações, especialmente em setores ligados ao consumo interno e à infraestrutura.
Argentina: do ceticismo ao interesse
Talvez nenhum país tenha mudado tanto a percepção dos investidores como a Argentina. As medidas de estabilização macroeconômica, o ajuste fiscal e o programa de reformas impulsionado pelo governo de Javier Milei começaram a modificar a visão de numerosos fundos internacionais.
Embora os riscos continuem elevados, especialmente pelo calendário político e pelas necessidades de refinanciamento da dívida previstas para 2027, várias agências de classificação de risco e gestores de ativos reconhecem uma melhora substancial em relação ao cenário observado há apenas dois anos. O interesse se concentra particularmente em energia; mineração; lítio; infraestrutura; agronegócio.
Chile e Peru: a aposta nos minerais críticos
Se existe uma tendência estrutural que está redefinindo os fluxos globais de investimento, essa é a transição energética. A eletrificação do transporte, o desenvolvimento de baterias, as redes elétricas inteligentes e os centros de dados requerem enormes quantidades de cobre e lítio.
Nesse cenário, Chile e Peru ocupam uma posição privilegiada. O Chile continua sendo um dos principais produtores mundiais de cobre e um ator fundamental na cadeia do lítio, enquanto o Peru mantém uma posição estratégica em cobre, prata e outros minerais essenciais para a transição energética.
Mais do que uma aposta conjuntural, numerosos fundos consideram esses ativos como investimentos vinculados a uma megatendência que poderia se estender por várias décadas.
As avaliações voltam a importar
Outro elemento que explica o renovado interesse pela América Latina é o diferencial de avaliações. Enquanto alguns mercados desenvolvidos são negociados perto de máximas históricas, numerosas empresas latino-americanas mantêm múltiplos consideravelmente inferiores.
Isso despertou o interesse de gestores especializados em estratégias de valor, que buscam ativos cuja cotação não reflita plenamente seu potencial de crescimento. No entanto, a oportunidade não está isenta de riscos, porque a região continua enfrentando desafios importantes como baixo crescimento potencial; produtividade limitada; incerteza política; vulnerabilidade fiscal e dependência do ciclo de matérias-primas.
O Banco Mundial estima que a América Latina crescerá de forma moderada durante os próximos dois anos, apoiada por melhores condições financeiras e menores pressões inflacionárias, embora alerte que o investimento e a produtividade continuam sendo os principais desafios estruturais.
A conclusão é clara. A América Latina não vive um retorno indiscriminado aos portfólios globais, o que está ocorrendo é mais sofisticado. Os grandes gestores de ativos já não observam a região como um bloco homogêneo, mas como um conjunto de oportunidades diferenciadas.
O México representa manufatura avançada e nearshoring. O Brasil oferece renda fixa atrativa, energia e matérias-primas. A Argentina simboliza uma aposta de alto risco com potencial de revalorização, enquanto Chile e Peru concentram a exposição a minerais críticos indispensáveis para a transição energética.
Para os fundos internacionais, a pergunta já não é se convém investir na América Latina, mas em que país, em que setor e sob qual estratégia fazê-lo.
Essa mudança de enfoque poderia marcar o início de uma nova etapa para os mercados de capitais latino-americanos: uma em que o atrativo da região dependerá menos do ciclo econômico global e mais de sua capacidade de oferecer projetos, setores e ativos alinhados às grandes transformações da economia mundial.



