Beatriz, diretora de um family office em Madri, gerencia um portfólio de fundos de private equity adquiridos ao longo da última década. Muitos desses fundos se encontram em etapa intermediária de vida, com vários anos ainda pela frente antes do exit. De repente, um de seus clientes high-net-worth precisa de liquidez para financiar um projeto filantrópico.
Tradicionalmente, Beatriz teria que recorrer a brokers do mercado secundário ou a grandes instituições que dominam esse espaço, negociar descontos significativos e esperar meses para fechar a transação, muitas vezes com visibilidade limitada sobre preços e demanda real. O processo é ilíquido, custoso e opaco.
Enquanto isso, começam a surgir novas plataformas digitais de secundários que prometem transações mais rápidas e transparentes. Mas a pergunta é inevitável: é possível confiar nelas?
O que está mudando
O mercado secundário de ativos privados evoluiu de um nicho para se tornar um ecossistema dinâmico e em rápida expansão. Segundo a Allvue Systems, as transações secundárias alcançaram um recorde de 150 bilhões de dólares em 2024 e podem superar os 200 bilhões em 2025. Esse crescimento é impulsionado pela crescente necessidade de liquidez dos investidores, o avanço dos GP-led continuation vehicles e uma maior convergência de preços entre compradores e vendedores.
A tecnologia está acelerando essa evolução. Plataformas como Moonfare, Lexington Partners, Forge e iCapital desenvolveram marketplaces digitais que conectam compradores e vendedores, gerenciam a documentação legal de forma eletrônica e facilitam o price discovery por meio de mecanismos como leilões. A Moonfare, por exemplo, organiza leilões semestrais nos quais os investidores podem vender participações a outros membros, reduzindo o tradicional prêmio de iliquidez.
Paralelamente, blockchain e a tokenização estão redefinindo o funcionamento do mercado secundário. A tokenização converte participações em fundos privados em digital securities que podem ser negociadas em redes de tecnologia de registro distribuído (DLT). O World Economic Forum estima que esse processo poderia liberar mais de 100 bilhões de dólares em capital e gerar economias anuais entre 15 e 20 bilhões.
Plataformas como ADDX e Securitize já permitem tokenizar interesses em fundos privados, reduzir os mínimos de investimento e viabilizar transações secundárias fracionadas. Os smart contracts automatizam processos de compliance e liquidação, reduzindo o risco de contraparte e os tempos de settlement. Até mesmo custodiante tradicionais como o Morgan Stanley estão colaborando com plataformas como a iCapital para desenvolver infraestrutura baseada em distributed ledger technology, padronizando dados e automatizando processos de pré-negociação e subscrição.
Problemas que são resolvidos
As plataformas digitais estão abordando ineficiências estruturais do mercado secundário. Em primeiro lugar, ampliam significativamente o acesso à liquidez ao conectar um universo mais amplo de compradores e vendedores, incluindo indivíduos qualificados e family offices.
A automação de processos de KYC/AML e funções de transfer agency reduz os tempos de settlement de meses para dias. Além disso, os mecanismos de leilão introduzem transparência de preços, reduzindo a assimetria de informação que historicamente favoreceu grandes compradores institucionais.
A tokenização leva isso um passo adiante ao permitir a propriedade fracionada. Isso significa que os investidores já não precisam vender participações completas, podendo liquidar apenas uma parte de sua posição. Para clientes UHNW em mercados como Brasil ou México, isso é especialmente valioso quando precisam de liquidez parcial sem desfazer completamente sua exposição a private markets.
Ao mesmo tempo, a tecnologia está democratizando o acesso a oportunidades secundárias. Plataformas com interfaces intuitivas permitem que assessores na Espanha ou no canal offshore dos Estados Unidos acompanhem seus clientes ao longo de todo o processo. Os investidores podem visualizar ofertas indicativas, revisar transações históricas e acompanhar eventos de liquidez.
À medida que os marcos regulatórios nos Estados Unidos, Europa e Ásia evoluem para acomodar ativos tokenizados, o secondary trading cross-border se torna cada vez mais viável. Os smart contracts integram regras de compliance, garantindo que os investidores cumpram os requisitos jurisdicionais antes de executar uma transação.
Benefícios para assessores e clientes
Para os assessores financeiros, os mercados secundários digitais representam uma ferramenta-chave para gerenciar necessidades de liquidez sem sacrificar o potencial de retorno de longo prazo. Em vez de aceitar descontos elevados, podem acessar múltiplas ofertas ou estruturar leilões em momentos favoráveis do mercado. A disponibilidade de dados de preços melhora a capacidade de definir expectativas e fortalece a relação com o cliente.
Além disso, a liquidez secundária pode ser integrada ao planejamento financeiro, permitindo modelar como vendas parciais impactam os fluxos de caixa e o perfil de risco do portfólio.
Para os clientes, os benefícios são igualmente relevantes. Eles acessam liquidez de forma mais rápida e eficiente, ao mesmo tempo em que obtêm maior transparência de preços. Também podem diversificar seu portfólio ao adquirir participações em fundos mais maduros, com durações mais curtas, reduzindo o chamado blind pool risk associado a investimentos primários.
As plataformas também facilitam a reinversão, permitindo que os investidores saiam de posições maduras e realoquem capital para novas oportunidades dentro do universo de alternativos.
Por outro lado, os mercados secundários digitais também agregam valor aos general partners (GPs). Os continuation funds, utilizados para estender a vida de determinados ativos, requerem compradores secundários que forneçam liquidez a investidores que estão saindo. As plataformas digitais simplificam esse processo por meio da automação de consentimentos e transferências, garantindo tratamento equitativo para todos os limited partners e fortalecendo a reputação do GP.
Por que isso importa agora
O crescimento exponencial dos private markets aumentou a necessidade de soluções de liquidez. Muitos investidores que realizaram compromissos durante o ambiente de taxas baixas em 2020–2021 agora enfrentam restrições de capital devido ao aumento das taxas de juros e à volatilidade do mercado. As transações secundárias tornaram-se uma válvula de escape.
Em mercados emergentes como o Brasil, onde a desvalorização cambial e choques macroeconômicos podem obrigar os investidores a rebalancear rapidamente, o acesso a mercados secundários eficientes é particularmente crítico. Da mesma forma, mudanças demográficas — como a transferência geracional de riqueza na Europa — geram eventos de liquidez que essas plataformas podem facilitar.
A aceitação regulatória também está avançando rapidamente. Jurisdições como Estados Unidos e Singapura já aprovaram unidades de fundos tokenizadas e estão explorando sistemas de liquidação baseados em blockchain. Na Europa, a regulamentação MiCA estabelece padrões para instrumentos tokenizados e plataformas de secondary trading, enquanto no Brasil a CVM emitiu diretrizes sobre a emissão e negociação de valores tokenizados.
À medida que esses marcos regulatórios amadurecem, os assessores poderão operar com maior confiança em transações secundárias cross-border.
Caso real
Um family office com sede em Madri precisava liberar capital para investir em um novo venture fund. Por meio de uma plataforma digital de secundários, o assessor listou uma participação em um fundo de private equity norte-americano.
Após concluir os processos de KYC digital, a plataforma conectou a oferta a múltiplos compradores na América Latina e na Ásia. Em menos de duas semanas, o family office aceitou uma oferta com um desconto de 5%, consideravelmente menor do que os níveis típicos do mercado tradicional.
A liquidação foi realizada por meio de smart contracts, transferindo unidades tokenizadas e recursos de forma simultânea. O assessor utilizou o dashboard da plataforma para gerar relatórios regulatórios tanto na Espanha quanto na jurisdição offshore nos Estados Unidos.
O resultado foi claro: liquidez rápida, execução eficiente e capacidade de reinvestir sem alterar a estratégia global do portfólio.
Coluna de opinião assinada por Juan Agualimpia, Chief Marketing Officer na LYNK Markets.
Fontes
Allvue Systems – Private Equity Trends 2025
Moonfare – Private Equity Secondary Market Guide
World Economic Forum – Unlocking Real-World Asset Tokenization
Boston Consulting Group – The Future Is Private
Businesswire – iCapital Deploys Distributed Ledger Technology with Morgan Stanley
Este documento é apenas para fins informativos e educacionais e não deve ser interpretado como aconselhamento de investimento, jurídico, fiscal ou de qualquer outro tipo profissional. As informações aqui contidas baseiam-se em dados públicos, pesquisas acadêmicas e relatórios da indústria considerados confiáveis no momento de sua elaboração; no entanto, sua exatidão e integridade não podem ser garantidas. Qualquer opinião expressa é de responsabilidade do autor e está sujeita a mudanças sem aviso prévio. O investimento em mercados privados e ativos alternativos envolve riscos, incluindo perda de capital, falta de liquidez, incertezas de valuation e riscos na seleção de gestores. O desempenho passado não é indicativo de resultados futuros. Os investidores devem consultar seus próprios assessores antes de tomar decisões de investimento.
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