A economia argentina se encontra novamente diante de um possível ponto de inflexão. Acaba de atravessar um processo eleitoral que resultou em um cenário legislativo capaz de avançar em reformas estruturais pendentes.
Conceitos econômicos básicos, que são fundamentais para construir o futuro independentemente dos ciclos políticos, passaram a fazer parte da discussão pública. Este é um primeiro passo necessário para deixar para trás anos de políticas pendulares que tornavam impossível qualquer tipo de consolidação.
Esses pilares que começam a ser mais aceitos são o equilíbrio fiscal, o controle da emissão monetária, a normalização da operação do comércio exterior e os avanços na eliminação dos controles cambiais.
Se esse processo for consolidado, o caminho à frente pode estar cheio de oportunidades, especialmente atrativas por abrir as portas de uma economia e de um mercado de capitais atrasados em relação aos padrões latino-americanos.
A economia argentina vem de 15 anos sem crescimento consolidado e com níveis muito baixos de investimento. Tem um longo caminho a percorrer até recuperar o terreno perdido em relação às principais referências regionais. No entanto, conta com uma vantagem: os avanços tecnológicos dos últimos anos reduziram o tempo necessário para o “catch up”.
A volatilidade dos últimos anos fez com que o mercado de capitais seja apenas fonte de financiamento de curto prazo.
Se analisarmos os últimos 15 anos, a economia da Argentina cresceu a um ritmo de apenas 0,96% ao ano, similar ao crescimento populacional do último período censitário. No mesmo período, economias comparáveis como Brasil, Chile, Colômbia, Peru ou Paraguai cresceram, em média, a 2,98%. Essa diferença acumulada em uma década e meia significa ter perdido, em termos absolutos, quase 35 pontos do PIB. Ou seja, se a Argentina tivesse replicado o ritmo de crescimento da região, hoje seu PIB poderia ser 35% maior. É uma das várias maneiras de medir o impacto da lacuna de crescimento e o potencial que a economia local pode alcançar.

Para atingir esses níveis de crescimento, é necessário um mercado de capitais sólido, estável e que financie os investimentos necessários. A volatilidade dos últimos anos fez com que o mercado de capitais fosse apenas fonte de financiamento de curto prazo e que os níveis de intermediação financeira fossem muito baixos. Nos últimos 15 anos, o atesoramento externo, ou seja, a demanda de dólares direcionada para o exterior ou para posse informal, alcançou 160 bilhões de dólares. Isso significa que mais de 25 pontos do PIB foram canalizados fora do sistema financeiro e do mercado de capitais local.
Quase 60% do patrimônio líquido sob gestão está alocado em fundos de “money market”, majoritariamente saldos de liquidez de um dia que não são investidos em ativos com preço de mercado.
O estado do mercado de capitais
Tudo isso faz com que o nível de intermediação financeira e a escala do mercado de capitais argentino sejam muito baixos. Isso é visível nos níveis de intermediação financeira – com depósitos em moeda local equivalentes a 14,6% do PIB e empréstimos em moeda local de 9% do PIB – bem abaixo das médias regionais. Além disso, no mercado de capitais local, apenas 65 empresas de capital aberto negociam ações. A capitalização de mercado dessas empresas é de apenas 13,5% do PIB.
Tanto o baixo nível de intermediação financeira quanto a pouca profundidade do mercado de ações mostram que a economia ainda tem muito a crescer no crédito ao setor privado. O setor público, deficitário por muitos anos, foi o principal demandante de financiamento, deslocando o setor privado desses mercados de crédito.
A indústria de Fundos Comuns de Investimento reflete claramente esse ponto de partida. Na Argentina, o patrimônio líquido sob gestão chega apenas a 9,7% do PIB, muito abaixo do volume de Brasil ou Chile e longe das médias das economias desenvolvidas. Mas o tamanho da indústria não é o único dado surpreendente. Ao analisar os ativos em que empresas e indivíduos investem, percebe-se que a indústria ainda é centrada em operações transacionais.
Quase 60% do patrimônio líquido sob gestão está alocado em fundos de “money market”. São majoritariamente saldos de liquidez de um dia que não são investidos em ativos com preço de mercado. São aplicados apenas em ativos a devengamento (depósitos à vista e a prazo). Por isso, apenas 3,9 pontos do PIB são aplicados em outras categorias, com destaque para a renda fixa, onde predominam títulos públicos.
Em resumo, ainda contribui muito pouco para o financiamento das atividades produtivas. Economias mais desenvolvidas apresentam ratios muito diferentes, com a indústria de fundos se tornando um ator relevante no financiamento do setor privado e na compra de ações (equity).
É importante consolidar este momento e transformá-lo em um ponto de inflexão que permita desenvolver o mercado de capitais e gerar um novo volume de negócios.
Desafios e oportunidades
Nos últimos anos, projetos de investimento em setores estratégicos que precisam de financiamento de longo prazo começaram a se desenvolver. Projetos em petróleo e gás, mineração, economia do conhecimento e infraestrutura. São projetos grandes que, por sua escala e prazo, necessitam de financiamento pelo mercado de capitais.
O exemplo mais claro é a exploração da área de hidrocarbonetos não convencionais de Vaca Muerta. Possui reservas de petróleo e gás capazes de gerar exportações anuais superiores a 30 bilhões de dólares, mas para isso precisa investir nos próximos cinco anos em perfuração de poços e infraestrutura necessária para processar e comercializar a produção.
O crédito tem sido um problema nos últimos anos devido à baixa oferta e à instabilidade das condições. A combinação de prazos curtos e incerteza sobre a renovação desses vencimentos pode levar a situações críticas para muitas empresas. Por isso é importante consolidar este momento e transformá-lo em um ponto de inflexão que permita desenvolver o mercado de capitais e gerar novo volume de negócios. É necessário avançar rapidamente nas reformas pendentes e na liberação de controles que ainda excluem muitos investidores institucionais.

Para a indústria de fundos, é uma grande oportunidade, pois – apesar de seu peso relativo baixo – conseguiu se consolidar e alcançar setores e clientes antes inacessíveis, graças à tecnologia. É uma indústria competitiva, criativa, inovando em produtos mesmo com marcos regulatórios restritos. O desafio agora é preparar-se para um mercado aberto, com a possível chegada de grandes players globais. O principal obstáculo é reverter a tendência histórica dos poupadores argentinos de retirar fundos do mercado formal local.
Em resumo, se este ponto de inflexão for consolidado, podemos entrar em um ciclo que reduza a distância em relação às referências regionais e desenvolva fortemente o mercado de capitais. Há muitas oportunidades nesse caminho. O foco deve estar em sustentar os fundamentos básicos (equilíbrio fiscal, não emissão, normalização comercial e reformas estruturais que aumentem a competitividade), sabendo que ajustes de curto prazo (câmbio ou taxa de juros) não mudam as decisões de investimento se esses pilares forem mantidos. É um momento de grande interesse de investidores atentos a essas oportunidades.
Coluna de opinião escrita por Federico Diez, CEO da MegaQM



