Dentro do universo dos real assets, a infraestrutura vem apresentando perspectivas cada vez mais atrativas para os investidores. E a indústria de ativos alternativos está percebendo esse movimento, beneficiando-se do ciclo favorável de investimentos em categorias como infraestrutura digital e energia, entre outras.
Impulsionados por uma série de tendências globais em curso — incluindo digitalização e eletrificação — os próximos anos devem trazer um boom de investimentos em infraestrutura. A consultoria PwC projeta que os gastos com esse tipo de projeto alcançarão 6,9 trilhões de dólares até 2050, acima dos 4,4 trilhões registrados em 2024.
“Ao longo desse período, o investimento global acumulado deverá alcançar 151 trilhões de dólares, à medida que os países modernizam sistemas de transporte, energia e infraestrutura industrial para atender às demandas de IA, eletrificação e urbanização”, afirmou a consultoria em um relatório recente.
E são justamente essas tendências que vêm ditando o ritmo do mercado, segundo a Macquarie, uma das principais gestoras da classe de ativos. “As oportunidades em infraestrutura são cada vez mais definidas por mudanças estruturais de longo prazo, e não por ciclos econômicos de curto prazo”, destacou a empresa.
Em linha com essas expectativas, o ano passado marcou uma recuperação na captação de recursos para a classe de ativos, atingindo 250 bilhões de dólares e mais do que dobrando os 99 bilhões captados pela indústria em 2024 — o menor valor em seis anos — segundo dados da With Intelligence, unidade da S&P Global Ratings.
Para a empresa, esses números sugerem que a confiança dos investidores permanece sólida. “Os gestores de fundos observaram uma demanda particularmente elevada por estratégias como transição energética e data centers”, acrescentaram no relatório.
A empresa também destacou que essa classe de ativos está seguindo o caminho de outros segmentos alternativos ao ampliar sua base de investidores. Segundo o relatório, gestoras de infraestrutura estão buscando capital junto a private banks “com a mesma urgência de seus pares de private equity e private credit”. Isso desencadeou uma corrida pelo desenvolvimento de produtos adaptados a diferentes perfis de investidores.
A promessa dourada da IA
Além do competitivo universo do capital privado, o boom da inteligência artificial produziu um efeito próprio sobre o espaço de ativos de infraestrutura: a ascensão dos data centers.
O entusiasmo gerado por essa tecnologia — descrita por muitos como uma verdadeira revolução industrial capaz de impactar todos os aspectos da economia moderna — criou uma forte demanda de investidores por infraestrutura digital voltada à captura desse crescimento.
“A revolução da IA, o nível extraordinário de investimento em data centers, equipamentos, chips, infraestrutura energética e outras áreas relacionadas continua impulsionando o crescimento econômico, e não vemos sinais de desaceleração”, afirmou Stephen Schwarzman, CEO da Blackstone, durante a teleconferência de resultados do primeiro trimestre com investidores.
A gestora — a maior administradora de ativos alternativos do mundo — vem apostando fortemente nessa tendência por meio de investimentos estratégicos em inteligência artificial. “Acreditamos que a Blackstone se tornou o maior investidor mundial em infraestrutura relacionada à IA”, afirmou o executivo, acrescentando que isso lhes dá “um lugar na primeira fila” para acompanhar os desdobramentos futuros.
Segundo a Macquarie, além dos data centers, a digitalização também vem impulsionando a demanda por redes de fibra óptica e infraestrutura de comunicação. O desenvolvimento também se expande por diferentes mercados. “As restrições de oferta em mercados consolidados estão sustentando o poder de precificação e incentivando o desenvolvimento em novas regiões.”
De forma geral, o caminho parece traçado. A PwC estima que o investimento anual em edifícios de data centers aumentará de 113,8 bilhões de dólares em 2024 para 251,8 bilhões em 2027. Isso representa um crescimento de 2,2 vezes em apenas alguns anos. No longo prazo, a consultoria espera que esse número alcance 1,5 trilhão de dólares até 2032, com uma “notável escalada de curto prazo” seguida de um período de melhoria do estoque instalado.
Uma economia mais elétrica
Ao lado da demanda impulsionada pela IA e pelos data centers, a energia também se tornou um dos grandes focos do mercado, apoiada pela tendência global mais ampla da transição energética.
“A demanda por eletricidade está crescendo em um ritmo que não víamos há décadas, impulsionada pela eletrificação, reindustrialização e infraestrutura digital”, afirmou Bruce Flatt, CEO da Brookfield Corporation, durante sua própria conferência com investidores. Atender essa demanda exigirá “enormes quantidades de nova capacidade de geração”, acrescentou, criando oportunidades para energia solar, eólica, nuclear e baterias.
“Enquanto digitalização, descarbonização e desglobalização continuarem evoluindo, cada uma delas continuará impulsionando uma demanda estrutural significativa por nova infraestrutura”, acrescentou o executivo.
A Macquarie concorda com essa avaliação, argumentando que a demanda por energia deve continuar crescendo, reforçando a necessidade de soluções energéticas confiáveis e de baixo custo. Para a empresa, ativos solares e eólicos, juntamente com armazenamento em baterias, continuam ganhando espaço — e participação de mercado — devido à queda de custos e ao aumento da demanda.
Nesse segmento, a PwC projeta que o boom de investimentos em infraestrutura energética elevará os gastos anuais para 1,1 trilhão de dólares até 2050. Isso representa um forte avanço frente aos 631 bilhões de dólares registrados pela indústria em 2024, totalizando 25 trilhões de dólares ao longo do período.
“Refletindo o ritmo da eletrificação, até 2025 o investimento anual em armazenamento de energia alcançará cerca de 91 bilhões de dólares”, afirmou a consultoria no relatório, equivalente a 3,7 vezes os níveis de 2024. O capital destinado à transmissão e distribuição de energia, por sua vez, deve crescer 2,6 vezes, chegando a 472 bilhões de dólares.



