O mercado brasileiro de ETFs vive um momento que gestores descrevem como decisivo. Ainda pequeno em termos relativos, o segmento cresce em ritmo acelerado, amplia o leque de produtos e começa a ocupar um papel mais estratégico nas carteiras — tanto de investidores institucionais quanto de alta renda. Durante o painel “The ETF Landscape: Trends, Innovation and What’s Next”, realizado no UBS Latin America Investment Conference, gestores de Itaú Asset, Nu Asset, Buena Vista Asset e XP Asset convergiram na leitura de que o ETF deixou de ser apenas um produto de nicho para se consolidar como um veículo central de alocação.
Crescimento e estágio do mercado
Apesar de representar menos de 1% da indústria brasileira de fundos, o crescimento recente dos ETFs chamou a atenção dos gestores. Em 2025, o patrimônio sob gestão praticamente dobrou, alcançando perto de R$ 100 bilhões, de acordo com Renato Nobile, fundador de gestor da Buena Vista Asset Management. A alta foi impulsionada tanto por novos produtos quanto pela entrada de novos investidores.
“A gente começou o ano com algo perto de R$ 50 bilhões e terminou próximo de R$ 100 bilhões. Foi um crescimento muito relevante”, diz Nobile. Para ele, o avanço não se explica por um único fator, mas por uma combinação de maior oferta, competição entre gestoras e amadurecimento do investidor.
Leonardo Vasques, da XP Asset Management, reforçou que o Brasil ainda está distante dos padrões internacionais. “Hoje a indústria de ETFs no Brasil é menos de 1% do total de fundos. Lá fora, esse número chega a 30% ou 35%. O caminho natural aqui é de expansão”, disse.
Soluções específicas para dores específicas
Um dos principais consensos do painel foi a ideia de que o ETF não deve ser visto como um produto isolado, mas como uma solução para problemas concretos de alocação. A lógica, segundo os gestores, é resolver dores específicas — custo, complexidade, acesso ou timing — e não simplesmente replicar estratégias tradicionais em um novo formato.
“O ETF funciona como um envelope. Dentro dele pode existir praticamente qualquer estratégia”, afirmou Andres Kikuchi, head e CIO da Nu Asset Management. “O grande benefício é a redução de complexidade: transparência, liquidez, preço em tela e facilidade operacional.”
Nobile reforçou esse ponto ao falar sobre ETFs de dividendos. “Muitos investidores têm dificuldade em montar uma carteira de geração de renda previsível. O ETF organiza isso, resolve a dor da escolha e do fluxo de pagamento”, disse.
Renda fixa como próximo motor
Se o crescimento recente foi impulsionado pela diversificação de produtos, o próximo salto, segundo os gestores, deve vir da renda fixa. Em um país historicamente dominado por juros elevados, ETFs de títulos públicos, crédito privado e estratégias de renda aparecem como o principal vetor de expansão.
“No país da renda fixa, faz todo sentido que o ETF avance justamente nessa classe”, afirmou Alexandre Frade Rodrigues, senior portfolio manager do Itaú Asset. “A gente sai de uma indústria extremamente concentrada em ETFs de renda variável para uma indústria que começa a usar ETFs de renda fixa e crédito como ferramenta central de alocação.”
Kikuchi acrescentou que a renda fixa via ETF reduz barreiras relevantes. “Você sai do ativo direto e passa a usar um basket transparente, simples e eficiente. Isso facilita muito a vida do investidor institucional e do private”, disse.
Mudanças recentes no ambiente tributário também ajudaram a acelerar essa tendência. “O fim de algumas vantagens dos fundos exclusivos fez com que muitos investidores migrassem para ETFs de renda fixa pela eficiência tributária”, observou Kikuchi.
ETFs ativos: debate aberto
A possibilidade de ETFs ativos no Brasil foi outro ponto de destaque no painel. Embora o mercado local ainda seja majoritariamente indexado, os gestores reconhecem que o debate tende a ganhar força, acompanhando o que já ocorre em mercados mais desenvolvidos.
Frade, no entanto, fez uma ressalva importante. “A proposta de valor do ETF está muito ligada à eficiência de alocação, custo baixo e transparência. ETFs ativos só fazem sentido se entregarem alfa de forma consistente”, afirmou.
Kikuchi complementou dizendo que a distinção entre ativo e passivo nem sempre é tão clara. “Um ETF indexado pode ser extremamente sofisticado, com fatores, smart beta e metodologias complexas. O importante é o investidor saber exatamente o que está comprando.”
Renato Nobile foi direto ao colocar a questão do veículo. “A pergunta não deveria ser se o ETF é ativo ou passivo, mas se ele é o melhor veículo para acessar aquela estratégia”, disse.
Regulação: evolução, não ruptura
Do ponto de vista regulatório, o tom do painel foi de cautela construtiva. Os gestores avaliam que o arcabouço brasileiro é adequado ao estágio atual da indústria e que mudanças devem ocorrer de forma gradual.
“Não acho que a gente precise de uma revolução regulatória. O que precisamos é continuar avançando com cuidado, acompanhando a maturidade do mercado”, afirmou Frade.
Kikuchi destacou que o Brasil tem a vantagem de aprender com a experiência internacional. “A gente pode olhar para o mercado americano, ver o que funcionou e, principalmente, o que não funcionou, antes de replicar aqui”, disse.
Além disso, alguns entraves ainda estão fora do ETF em si. “Existem limitações de alocação para certos investidores institucionais que não têm a ver com o produto, mas com o ecossistema”, observou Kikuchi.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, a visão de futuro apresentada no painel é amplamente otimista. Os gestores acreditam que os ETFs tendem a ganhar papel estrutural nas carteiras, substituindo parte das funções hoje exercidas por fundos tradicionais e servindo como base para portfólios modelo.
“A alocação vem antes da seleção. O ETF permite que você se posicione rapidamente nas classes de ativos e refine depois”, afirmou Frade. “Isso faz muita diferença no resultado final do investidor.”
Vasques reforçou que o crescimento dos ETFs não deve ser visto como ameaça ao mercado, mas como expansão do ecossistema. “O ETF aumenta o acesso, melhora a liquidez e amplia as possibilidades de investimento. Isso é positivo para todo mundo”, disse.
