A alta dos preços do petróleo e os ajustes nos mercados globais de ações estão captando a atenção dos investidores; no entanto, as gestoras estão recomendando observar o que está acontecendo no mercado de renda fixa, especialmente com os títulos. Desde o início da guerra entre os Estados Unidos e o Irã, no final de fevereiro, o mercado de títulos tem se comportado de forma incomum para um conflito geopolítico.
Segundo especialistas, chama a atenção que, em vez de atuar claramente como ativo de refúgio, os títulos têm sofrido pressão de venda e seus rendimentos têm subido. Por exemplo, o rendimento do Treasury de 10 anos dos EUA superou 4%, impulsionado pelo aumento dos preços do petróleo e das expectativas de inflação. Normalmente, durante episódios geopolíticos ocorre uma “fuga para a qualidade”, ou seja, os investidores compram títulos soberanos como ativos de refúgio. No entanto, desta vez ocorreu o contrário, pois o risco inflacionário pesou mais do que o efeito de refúgio. Alguns analistas chegaram a afirmar que o mercado de títulos “não está funcionando como um ativo de refúgio” neste episódio.
Comportamento do mercado de títulos
“No caso dos títulos soberanos, o padrão mais comum durante períodos de tensão geopolítica tem sido a queda dos rendimentos devido à demanda por ativos de refúgio. Essa foi a reação inicial após o anúncio da operação militar. No entanto, os rendimentos subiram ao longo da semana. Com exceção do Japão, os principais mercados de dívida pública têm experimentado um bear flattening até o momento neste mês, com os rendimentos de curto prazo apresentando desempenho significativamente pior. Os chamados ‘vigilantes dos títulos’ poderiam argumentar que isso reflete o estado cada vez mais frágil das contas públicas, dado o alto nível de endividamento e a contínua expansão fiscal, o que pode comprometer o papel tradicional dos títulos soberanos como reserva de valor em períodos de incerteza global”, explicam especialistas da Muzinich & Co.
Daniel Loughney, Head de Renda Fixa da Mediolanum International Funds (MIFL), concorda que, até agora, a dívida soberana apresentou o desempenho mais fraco, já que as preocupações com a inflação levaram à revisão das expectativas de cortes de juros. “De fato, agora se espera que o BCE aperte a política monetária em cerca de 50 pontos-base. Como resultado, os títulos de curto prazo foram os mais afetados, enquanto os de prazos mais longos sofreram menos”, observa.
Na visão de Luke Hickmore, CIO de Renda Fixa da Aberdeen, a razão para esse comportamento é que o mercado de títulos está altamente focado nos problemas que podem surgir com o aumento dos preços dos hidrocarbonetos, especialmente o impacto do gás natural na Europa e no Reino Unido. “Os títulos do governo do Reino Unido tiveram um desempenho muito fraco nesse período, com o rendimento dos títulos de 10 anos subindo cerca de 0,5% durante esse conflito, e os títulos de prazo mais curto já passaram a precificar um aumento de juros pelo Banco da Inglaterra em junho.”
Por sua vez, Adam Hetts, Global Head de Multi-Asset, e Oliver Blackbourn, Portfolio Manager da Janus Henderson, explicam que as preocupações com o aumento da inflação na Europa — ou simplesmente com a persistência prolongada da inflação nos Estados Unidos— explicam por que as taxas de rendimentos dos títulos subiram. “As taxas de rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA subiram à medida que os mercados descartaram uma das reduções da taxa de juros pelo Federal Reserve dos EUA que era esperada para o final do ano. Os rendimentos dos Treasuries de 10 anos variaram menos do que seus equivalentes europeus, já que os dados de emprego dos EUA divulgados na sexta-feira ajudaram a compensar parte da pressão ascendente sobre os rendimentos decorrente da inflação esperada”, afirmam.
Um olhar sobre o mercado de crédito
Em contraste, desde o início do conflito entre os Estados Unidos e o Irã, o crédito investment grade não refletiu de forma significativa as tensões econômicas nos preços. Segundo relatórios de mercado, os spreads se moveram ligeiramente, mas continuam refletindo a excelente qualidade fundamental da maioria das grandes empresas nesse ambiente.
“É provavelmente aí que reside o risco nas próximas semanas: se os problemas de oferta de petróleo e gás persistirem e tiverem um impacto negativo duradouro na qualidade corporativa, o crédito corporativo provavelmente terá um desempenho abaixo do esperado. Nos últimos meses, temos favorecido maior qualidade nos mercados de crédito, reduzindo risco e mantendo mais caixa do que o habitual. Ainda não é o momento de alocar esse caixa”, explica Hickmore.
A Muzinich & Co reconhece que os retornos totais nos mercados de crédito são menores até agora neste mês, embora, curiosamente, o high yield tenha superado ligeiramente o crédito investment grade. “De fato, um investidor europeu posicionado em high yield dos EUA sem hedge cambial provavelmente estaria bastante satisfeito com essa decisão de investimento até o momento neste mês.” Quanto aos ativos mais arriscados, a gestora espera que os spreads de crédito se ampliem.
Conclusões
Após essa análise dos dois mercados, segundo Luke Hickmore, CIO de Renda Fixa da Aberdeen, o que está acontecendo é claro: “O aumento dos rendimentos dos títulos públicos está fazendo parte do trabalho pesado e tem impedido que os spreads de crédito se ampliem tanto quanto poderíamos ter esperado antes do início do conflito.”
Apesar dessas dinâmicas incomuns, Loughney defende a permanência nos investimentos e afirma que investidores conservadores não devem reagir de forma exagerada. “Grande parte do risco de queda já foi precificada sob a hipótese de um conflito prolongado. Qualquer sinal de resolução na próxima semana pode desencadear uma reversão de parte dos movimentos recentes, da qual os investidores podem se beneficiar”, diz.
As gestoras argumentam que a escalada dos riscos geopolíticos ocorreu em um momento em que as pressões inflacionárias vinham se moderando globalmente. Como resultado, explicam que, nos últimos 12 meses, houve mais sinais de que a renda fixa pode atuar como contrapeso à fraqueza dos mercados de ações. “Os bancos centrais provavelmente ignorarão o aumento pontual dos preços de energia e commodities em geral. No entanto, um conflito prolongado que eleve a probabilidade de uma alta sustentada nos preços do petróleo aumentará as preocupações com uma inflação mais persistente. É esse efeito secundário — caso as expectativas de inflação se desancorem — que pode preocupar os bancos centrais. Por enquanto, vemos algum risco de alta para os rendimentos no curto prazo, mas ainda dentro da faixa recente de negociação. Os acontecimentos recentes reforçam a necessidade de gerir ativamente as carteiras de renda fixa, não apenas para aproveitar oportunidades, mas também para proteger contra riscos de queda. Como sempre, a diversificação continua sendo fundamental”, argumenta James Ringer, gestor de fundos da Schroders.



