Os fundos de pensão consultados pela Abrapp e pela Itajubá Investimentos pretendem ampliar a exposição a ações e a ativos no exterior nos próximos três anos. A intenção de diversificar as carteiras aparece em um cenário ainda marcado pela concentração em renda fixa, que respondia por 86,2% dos recursos das entidades participantes no encerramento de 2025.
Os dados são da pesquisa Raio-X de Investimentos das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPCs) 2026, apresentada em congresso em São Paulo. O levantamento reúne instituições com R$ 461 bilhões em ativos, equivalentes a aproximadamente 34% dos R$ 1,374 trilhão do sistema de previdência complementar fechada em dezembro de 2025. A edição consolidou mais de 12 mil informações e traz comparações com as pesquisas de 2013 e 2023.
Exterior lidera intenção de aumento
Os investimentos internacionais apresentam o maior saldo líquido de intenção de ampliar a exposição: 50 pontos percentuais no horizonte de 12 meses e 47 pontos em 36 meses. Para ações, os saldos são de 18 e 26 pontos, respectivamente. Esses indicadores expressam o balanço entre as intenções de aumentar e reduzir a exposição a cada segmento.
“Ao avaliar as perspectivas para os horizontes de 12 e 36 meses, os investimentos no Exterior lideram a intenção de aumento de exposição”, afirma Carlos Garcia, sócio-fundador da Itajubá Investimentos.
Imóveis e fundos de investimento em participações (FIPs) concentram as maiores intenções de redução, com saldos negativos de 46 e 41 pontos percentuais, respectivamente. Os FIPs estão nas carteiras de 49% das entidades pesquisadas e, entre aquelas que investem na modalidade, 58% se declaram satisfeitas.
A presença dos investimentos internacionais nas políticas de investimento também cresceu. Em 2013, a classe constava em 50% dessas políticas; em 2026, o percentual chegou a 84%. Diversificação e baixa correlação estão entre os principais motivos citados para investir fora do país.
Juros sustentam concentração em renda fixa
A disposição de ampliar a diversificação sucede um período de aumento do peso da renda fixa nas carteiras pesquisadas. A participação do segmento passou de 56% em 2013 para 86,2% ao fim de 2025, enquanto a renda variável recuou de 34% para 4,7%. Dentro da renda fixa, cerca de 90% dos recursos estão em títulos públicos, com destaque para as NTN-Bs, indexadas à inflação.
Para João Ferreira, diretor de Investimentos da Abrapp, os juros reais elevados explicam parte dessa concentração ao permitir que as entidades encontrem, nos títulos públicos, retornos superiores aos necessários para cumprir seus compromissos atuariais.
“Os juros reais elevados ofereceram uma excelente oportunidade para que os fundos de pensão adquirissem títulos públicos indexados à inflação, com rentabilidade superior aos seus compromissos atuariais”, afirma.
A maturidade do sistema também pesa nas decisões. “Além disso, temos um sistema maduro, em que o pagamento de benefícios supera o ingresso de contribuições, o que reforça a necessidade de investimentos com maior estabilidade e menor volatilidade”, explica Ferreira.
Segundo o diretor, uma retomada mais expressiva dos ativos de maior risco depende de uma mudança duradoura no ambiente de juros. A aproximação entre as taxas reais de mercado e as taxas dos compromissos atuariais aumentaria a necessidade de buscar retornos em outras classes.
“Mas, para isso, é fundamental que exista previsibilidade de manutenção dos juros em patamares mais baixos por um período prolongado”, afirma.
Gestão externa e seleção de gestores
A pesquisa também mostra mudanças na forma de implementar os investimentos. Na renda variável, a participação da gestão passiva e indexada avançou de 15% para 36%. No segmento de multimercados estruturados, os fundos macro concentram 68% das alocações.
Todas as entidades participantes terceirizam algum serviço, e a parcela que utiliza gestão exclusivamente externa passou de 37% para 44%. Na escolha dos gestores, os critérios mais citados são o retorno histórico, mencionado por 87% das instituições, e a equipe de gestão, por 85%. O apoio de consultorias nessa seleção está presente em 64% das entidades.
Os fatores ambientais, sociais e de governança (ASG), investigados pela primeira vez nesta edição, são considerados por 54% das entidades na seleção de ativos. Dentro desse grupo, 29% têm uma política formalizada. Na seleção de gestores, 64% avaliam critérios ASG, predominantemente como um “ponto extra” na análise.
Governança e controle de riscos
O levantamento aponta que 79% das entidades dispõem de comitê de investimentos. Entre esses comitês, 68% realizam reuniões mensais. Todas as instituições revisam anualmente suas políticas de investimento, e 74% contam com suporte externo para definir a macroalocação.
Na gestão de riscos, 97% utilizam o VaR (Value at Risk), enquanto a adoção de orçamento de riscos passou de 53% em 2023 para 74% nesta edição.
“A pesquisa comprova uma grande evolução na governança e controle de risco das entidades”, afirma Garcia.
A amostra tem predominância de instituições de maior porte: 74% administram mais de R$ 1 bilhão, e 15% superam R$ 10 bilhões. A faixa entre R$ 1 bilhão e R$ 5 bilhões concentra 41% dos respondentes. Quanto à natureza do patrocínio, 51% são de origem privada, 28% pública, 15% mista e 5% de instituidor.
