Você se lembra do que estava fazendo exatamente há um ano? Muito provavelmente estava grudado na sua tela da Bloomberg ou respondendo chamadas e e-mails de seus clientes, enquanto o índice S&P 500 despencava até 18,7% a partir de seu pico em fevereiro. Sim, já se passou um ano desde o “Liberation Day” e a imagem que ficou para a história foi a de Donald Trump segurando uma enorme tabela onde se especificavam cada uma das tarifas que os Estados Unidos aplicariam aos países com os quais mantinham um forte déficit comercial — embora não exclusivamente.
Para os mercados, essa encenação teve outro significado: o retorno da volatilidade e da incerteza, que hoje continuam, mas agora protagonizadas pela geopolítica e pelo petróleo. Como aponta Mauro Valle, responsável por renda fixa da Generali AM (parte da Generali Investments), ao fazer um balanço deste primeiro ano da nova normalidade na política comercial dos Estados Unidos, o mais relevante são as mudanças no mercado que ocorreram a partir do Liberation Day.
“A política protecionista do presidente Trump teve duas consequências nos meses seguintes ao anúncio das tarifas. A primeira, no mercado de dívida, onde houve uma forte alta no rendimento do título do Tesouro dos EUA de 10 anos. E a segunda, que ainda persiste em grande medida, foi um dólar mais fraco frente a moedas como o euro. O dólar, de fato, se depreciou nos últimos meses devido a outros fatores, como os déficits gêmeos, a geopolítica e a fragmentação dos fluxos globais de capital. No entanto, em fases recentes de forte aversão ao risco, ele ainda pode se fortalecer de forma tática, refletindo seu papel como ativo de liquidez. Resta saber se, após essa crise, o dólar continuará sendo percebido como um ativo de refúgio ou não”, explica Valle.
Na opinião de Diego Fernández Elices, diretor geral de investimentos da A&G, o cenário mudou estruturalmente e hoje vivemos em um mundo mais incerto, no qual tudo parece revisável e apenas acordos bilaterais são respeitados. “É mais importante do que nunca ter uma estratégia de investimento e respeitá-la, evitando a inação, mas também a reação excessiva. O investidor deve ser capaz de gerenciar suas emoções e evitar cair em depressão após um anúncio de tarifas por parte de Trump, assim como evitar a euforia diante de, por exemplo, um acordo de paz no Irã”, afirma.
Comportamento dos mercados
A surpresa é que, apesar do impacto inicial, o balanço do último ano mostra uma mensagem diferente: os mercados emergentes desafiam as expectativas e lideram as altas dos mercados acionários globais um ano após o anúncio das tarifas do Dia da Libertação. Segundo dados analisados pela Aberdeen Investments, que se concentram em comparar a variação percentual para avaliar o desempenho de seis grandes mercados globais entre o fechamento de 2 de abril de 2025 e um ano depois, em 27 de março de 2026, a maioria dos principais índices apresentou dinâmica positiva, com os mercados emergentes à frente.
Segundo a gestora, os mercados acionários globais registraram fortes ganhos no período, mas o índice MSCI Emerging Markets foi o que apresentou melhor desempenho, com alta de 26%, seguido pelo FTSE 100, com 16%, e pelo FTSE World, com 14,1%. Por sua vez, o S&P 500 registrou alta de 9,6%, enquanto o Dow Jones e o DAX apresentaram ganhos mais modestos, de 4,4% e 3,1%, respectivamente.

“Durante o último ano, os investidores tiveram que dar sentido a muito ruído e incerteza, além do impacto humano dos acontecimentos globais. Embora nunca queiramos tirar grandes conclusões a partir dos dados de mercado de apenas um ano, nossa análise é interessante e este período serviu para nos lembrar que as manchetes nem sempre contam toda a história. Mesmo em um momento em que os mercados e a geopolítica parecem mais entrelaçados do que nunca, os números às vezes podem apontar para algo diferente. Nossa principal recomendação tem sido incentivar os investidores a diversificar suas alocações em renda variável e, nesse sentido, é gratificante ver que outros mercados além do americano lideram o desempenho em um momento de grande incerteza”, afirma Ben Ritchie, diretor de Renda Variável de Mercados Desenvolvidos da Aberdeen Investments, à luz dessas conclusões.
Resiliência econômica
Na visão de Jon Butcher, economista sênior especializado nos Estados Unidos da Aberdeen, um ano após o “Liberation Day”, a economia americana demonstrou resiliência apesar de um claro arrefecimento do mercado de trabalho. “A contratação desacelerou drasticamente nos meses posteriores ao anúncio das tarifas, à medida que as empresas avaliavam o aumento dos custos e a incerteza política. Ainda assim, o crescimento se manteve melhor do que o esperado, já que os lares continuaram consumindo e o investimento empresarial se acelerou. As tarifas de fato impulsionaram a inflação, mas o impacto foi mais lento e menor do que o mercado temia inicialmente”, afirma Butcher.
Além disso, chama atenção o fato de que o comércio em 2025 não se contraiu, apesar das previsões negativas. “Tanto as importações dos EUA quanto as exportações da China atingiram novos máximos. O Sudeste Asiático aprofundou seu papel na manufatura global, a Índia ganhou espaço em setores específicos e o Brasil ampliou as exportações de commodities para a China. No conjunto, o comércio cresceu mais rápido do que a economia global, enquanto economias avançadas e a China se reorientaram para longe de parceiros comerciais geopolíticamente distantes”, aponta o McKinsey Global Institute em seu relatório mais recente.
Ainda assim, segundo o think tank interno da McKinsey & Company, as tarifas desencadearam um reajuste no comércio, com o comércio entre Estados Unidos e China caindo cerca de 30%. “Os Estados Unidos substituíram aproximadamente dois terços dessa lacuna com importações de outros fornecedores, enquanto os exportadores chineses de bens de consumo, de carros elétricos a brinquedos, reduziram os preços em média 8% para encontrar compradores em novos mercados. A ASEAN prosperou, aumentando o comércio com ambas as economias, mas a União Europeia enfrentou uma dupla pressão: mais importações chinesas e tarifas americanas mais altas”, acrescentam.
Lições aprendidas
Esse episódio deixa várias lições. Em primeiro lugar, segundo o McKinsey Global Institute, as mudanças no comércio apontam para tendências duradouras e, portanto, para a necessidade de resiliência diante de choques. “A IA, o crescimento dos mercados emergentes e a evolução do modelo manufatureiro da China não são fenômenos passageiros, assim como o papel crescente da geopolítica na reconfiguração do comércio — uma mudança que já é evidente nos dados há quase uma década. Os desenvolvimentos de curto prazo também exigem resposta. As mudanças tarifárias em 2025 foram abruptas — e 2026 já trouxe suas próprias turbulências. As empresas precisam de uma visão de longo prazo combinada com agilidade”, afirmam.
Em segundo lugar, o economista da Aberdeen alerta que o cenário político se tornou ainda mais incerto: “A decisão da Suprema Corte sobre a IEEPA colocou em dúvida o futuro do regime tarifário, e os esforços para reconstruir partes dele por meio de outras ferramentas políticas deixaram as empresas sem saber quais serão as regras do jogo no longo prazo. Para os mercados, o maior risco é a crescente percepção entre investidores globais de que os Estados Unidos estão se tornando um destino menos confiável para o capital. Aumentaram as preocupações com a volatilidade política, a independência do banco central e a pressão fiscal. E, embora a atenção tenha se deslocado para a crise no Irã e os preços da energia, as tarifas continuam sendo um fator crítico não resolvido que influencia a forma como o capital internacional percebe os Estados Unidos”.
Para Elices, “um ano depois, fica descartado o dano irreparável em termos de inflação que os mais pessimistas apontavam”. Segundo sua visão, a principal lição é que as tarifas foram uma ferramenta de negociação relevante para os Estados Unidos, além de terem contribuído para financiar parte da transição enquanto se aguardam estímulos fiscais do OBBA. “Neste ano aconteceu de tudo, e as tarifas foram possivelmente o exemplo mais claro do TACO trade, com idas e vindas constantes. As tarifas massivas foram interrompidas pela Suprema Corte e perderam parte do protagonismo, porque o mercado já está focado em outros temas, mas fica claro que é uma ferramenta que Trump continuará utilizando de uma forma ou de outra”, acrescenta.
Por fim, a Capital Group lembra que, em momentos de volatilidade, é difícil resistir à tentação de agir, mas recomenda manter o rumo. “Qual é a lição do ‘Liberation Day’? As quedas do mercado podem ser dolorosas, mas, em vez de tentar prever o momento certo de entrar ou sair, o mais sensato para os investidores é manter o rumo. Para enfrentar a volatilidade, devem buscar diversificação entre ações e títulos, além de avaliar periodicamente sua tolerância ao risco diante de um ambiente mais volátil. Ainda que pareça diferente desta vez, os mercados já demonstraram resiliência ao longo da história diante de guerras, pandemias e outras crises”, concluem.
