Sem muitos incentivos para comunicar suas estratégias e funcionamento interno, é difícil conseguir informação completa sobre o desempenho dos hedge funds. No entanto, uma análise detalhada da firma de serviços para investidores de alternativos Canoe Intelligence –respaldada pelo Goldman Sachs em sua última rodada de financiamento– aponta para as diferenças que se geram dentro do espaço de fundos de hedge.
O dilema, segundo indicou a entidade por meio de um relatório, é que os benchmarks de desempenho do segmento não entregam toda a informação, já que tendem a não incluir os veículos que efetivamente dominam os posicionamentos institucionais. Assim, a firma decidiu analisar o desempenho dos hedge funds por meio de dados agregados extraídos diretamente dos extratos de contas, cartas a investidores e relatórios de fundos de mais de 500 institucionais e mais de 18.000 limited partners.
Realizando esse exercício, algumas tendências emergem ao observar os fundos de hedge mais relevantes, os que a Canoe classifica como “VIP”. Neste segmento, a firma viu algumas tendências relacionadas a diferentes estratégias e como o tamanho parece jogar a favor ou contra de diferentes estruturas.
Especificamente, os hedge funds multi-manager parecem se beneficiar de um maior tamanho, enquanto os veículos de valor relativo e arbitragem são um campo mais fértil para as companhias menores.
Pod shops: a vantagem da escala
Desagregando as diferentes categorias, o relatório ressalta que há um tipo de fundo de hedge que se mostra mais efetivo na preservação de capital: os hedge funds multi-manager.
Essas plataformas, conhecidas como “pod shops” –dado que possuem diferentes equipes com suas próprias filosofias de investimento, gerindo ativamente as diferentes porções alocadas dentro da carteira–, demonstraram a capacidade de navegar a volatilidade do mercado com poucas quedas e recuperações rápidas.
O grupo de hedge funds multi-manager mais relevantes dentro das carteiras institucionais, os VIP, destacam no relatório, “mostraram as menores quedas de valor de qualquer segmento analisado, incluindo estratégias quantitativas e de arbitragem VIP”.
Por exemplo, na turbulência de mercado de outubro de 2023, as pod shops VIP registraram perdas virtualmente nulas, segundo os cálculos da firma, enquanto o segmento de hedge funds VIP em geral sofreu uma contração de 3%. Tudo isso enquanto o S&P 500 ajustado caiu 5% nesse período. Da mesma forma, em abril de 2025, as quedas dos veículos multi-manager foram de 0,5%, frente às de 2,7% nos hedge funds VIP e de 4,5% da bolsa americana.
A que se deve esse comportamento? Segundo a Canoe destacou em seu relatório, o tamanho desses fundos de hedge joga a seu favor. “As grandes plataformas multi-manager construíram estratégias de mitigação de risco para absorver deslocamentos de mercado, em nível de setor e de estratégia, sem um impacto material na carteira”, indicaram.
Como cada porção do veículo multi-manager –cada “pod”– tem um perfil de risco/retorno e uma relação com o mercado geral distintos, os ganhos e perdas da plataforma podem se ir compensando.
Valor relativo e arbitragem: o prêmio à agilidade
Embora haja muitos contextos em que o tamanho joga a favor dos fundos de investimento, no caso dos fundos de hedge identificou-se as estratégias de valor relativo e arbitragem como um espaço em que é melhor não crescer muito.
Nesse setor do mercado, o que se premia é a agilidade, segundo mostram os dados da Canoe. Em termos absolutos, olhando os últimos três anos, os hedge funds de valor relativo em geral registraram um retorno de 8% anual, com uma volatilidade anualizada de 2,6%; enquanto o segmento VIP –que agrupa fundos de hedge maiores– de estratégias de valor relativo e arbitragem registrou um retorno de 6% e volatilidade de 1,4%.
Isso significa que os veículos menores conseguiram um melhor desempenho, aceitando mais turbulência no processo.
Nesse caso, um maior tamanho já não é uma vantagem comparativa, como ocorre com as pod shops. “As estratégias de valor relativo e arbitragem tratam-se, fundamentalmente, de velocidade e agilidade”, descrevem desde a Canoe, já que se dedicam a explorar ineficiências de preços que podem desaparecer em horas ou dias.
“Em escala, o poder executar rápido o suficiente para capturar essas oportunidades se torna mais difícil, estruturalmente”, explicaram em seu relatório. Por exemplo, causando impactos no mercado com suas posições mais volumosas ou perdendo agilidade na tomada de decisão devido a cadeias de aprovação mais complexas.
O dilema dos benchmarks de hedge funds
O estudo da firma de serviços financeiros busca captar informações de dinâmicas que os benchmarks tradicionais de fundos de hedge não refletem, dada a forma como estão construídos.
A maioria, indicaram, está baseada em informação fornecida voluntariamente pelos gestores. Assim, observa-se um viés em direção às firmas que estão captando recursos ativamente. E, por outro lado, as firmas maiores e mais bem-sucedidas, que não têm incentivos de marketing para reportar e possuem milhares de razões para manter seu desempenho em segredo.
“O resultado disso é um índice mais moldado por quem participa do que por onde está efetivamente o capital institucional. Isso é um viés de contribuição e tem inclinado os benchmarks publicados para gestores menores e que estejam em modo de captação”, indicaram no relatório.
Isso deixa fora das métricas grandes segmentos da indústria de fundos de hedge, como as plataformas multi-manager, os gigantes dos investimentos quantitativos e as “lendas” do macro global, casas de investimento com centenas de bilhões de dólares sob gestão.



