Apesar de existirem algumas dúvidas em torno da grande tese de investimento relacionada à inteligência artificial – especialmente ligadas ao elevado volume de capital investido, às valorizações das empresas, à concentração em renda variável e ao tempo necessário para geração de lucros –, os investidores não estão recuando nos mercados privados. O mais recente estudo da S&P Global Market Intelligence mostra esse cenário, indicando que os LPs – de todos os perfis, de forma transversal – continuam apostando fortemente nessa tecnologia, especialmente no segmento de venture capital.
Na empresa, a IA é descrita como “a exposição mais demandada nos mercados privados”, com investidores de todos os níveis patrimoniais recorrendo à classe de ativos, sem grande preocupação com ciclos de investimento mais longos.
“O espaço de IA teve um desempenho massivamente superior em termos de valorização de mercado. Ao longo de 2024 e 2025, a TIR de fundos de VC focados em IA mais do que dobrou em relação aos veículos de tecnologia não relacionados à IA”, explica Daniel Sandberg, Global Head de Quantitative Research and Solutions da S&P Global Market Intelligence, à Funds Society.
Esse diferencial de retorno, acrescenta ele, somado a rodadas chamativas acima de 1 bilhão de dólares, fez com que esses investimentos se tornassem “impossíveis de ignorar”.
Daqui para frente, o setor pretende continuar injetando capital no segmento. Em uma pesquisa realizada com 325 limited partners globais, com dados coletados até março deste ano, mais de 75% dos investidores afirmaram esperar alocar mais capital nessa tecnologia nos próximos 12 meses.
E esse interesse é transversal, destaca Sandberg, incluindo single-family offices (SFOs), multi-family offices (MFOs), endowments e gestores patrimoniais. “Cada segmento demonstrou uma intenção ainda mais forte de direcionar capital para IA”, afirma o executivo. Nesse sentido, a aposta mais intensa vem dos MFOs, com cerca de 90% dos investidores prevendo aumentar os aportes, enquanto os SFOs se mostram mais seletivos, próximos de 60%.
E a liquidez?
Sem dúvida, não é a liquidez que está impulsionando os investimentos generalizados em inteligência artificial, e o estudo da S&P evidencia isso. Em um cenário em que há cada vez menos oportunidades de saída – com atividade fraca de IPOs e um ambiente desafiador para M&A –, os recursos continuam entrando no setor.
“Não há sinal de diminuição da demanda do lado dos LPs”, afirma Sandberg. Considerando as intenções de investimento, acrescenta o executivo, “os fluxos de capital para IA não estão desacelerando, estão acelerando”, enfatiza.
Embora Sandberg lembre que “eventualmente, os investidores precisam receber dinheiro de volta”, o que depende da reabertura da janela de desinvestimento, a demanda persistente por parte de investidores de todos os tipos indica que “o mercado claramente está disposto a incorporar ciclos de investimento mais longos para capturar o prêmio da IA”. Por enquanto, o retorno está mais nas telas do que nas distribuições.
Em contraste com os 310 bilhões de dólares destinados a esses investimentos entre a segunda metade de 2025 e o primeiro trimestre de 2026, os IPOs somaram apenas 2,64 bilhões de dólares, enquanto as operações de M&A alcançaram 44,5 bilhões de dólares, excluindo a compra da xAI pela SpaceX, no valor de 260 bilhões de dólares.
Os dados da empresa mostram que os fluxos estão passando por mudanças na dinâmica atual, concentrando-se nos megadeals. Nos últimos três trimestres, segundo o estudo, o capital captado triplicou, mas o número de transações caiu 23%. O que isso significa? Que o acesso aos ativos “imperdíveis” está mais restrito e existe uma pressão ainda maior sobre as valorizações.
O dilema da concentração
Um efeito colateral complexo dessas dinâmicas de investimento alternativo em IA é a elevada concentração observada em todos os níveis. Sandberg a descreve como “impressionante”.
Para ilustrar: “De janeiro de 2025 a abril de 2026, 6.491 empresas de IA captaram rodadas abaixo de 1 bilhão de dólares. Se você combinar essas 6.491 rodadas, o total ainda ficará 3 bilhões de dólares abaixo do que apenas a OpenAI captou no mesmo período”, relata.
O resultado é um ambiente em que cerca de 25 players dominam essas “rodadas unicórnio”, enquanto existe uma enorme cauda de empresas menores.
“Isso levanta duas perguntas críticas para a indústria: esses 25 principais players estão supercapitalizados? Potencialmente supervalorizados? E, mais importante, essa longa lista de 6.500 rodadas menores ficou com valorizações incorretas, subvalorizadas?”, questiona o executivo da S&P Global Market Intelligence.
Assim, a empresa descreve o fenômeno de um “squeeze de unicórnios”, que pode criar um risco de concentração oculto dentro das carteiras dos fundos. “Quando 82% do capital incremental está concentrado em megadeals, o motor subjacente dos retornos torna-se cada vez mais concentrado, impulsionado por algumas posições gigantescas, em vez de uma formação de capital ampla e diversificada”, alertaram no estudo.



