O mercado mexicano de fundos apresenta um contraste notório: nos últimos anos registra um boom evidente que o posiciona como um dos de maior crescimento no mundo; no entanto, apresenta uma brecha estrutural nada saudável: é altamente concentrado e pouco profundo.
Essa brecha estrutural é, no futuro, uma limitação para seu desenvolvimento frente a economias comparáveis, apesar de seu crescimento recente. No fechamento de 2025, os ativos sob gestão alcançaram cerca de 4,916 trilhões de pesos (pouco mais de 280.000 milhões de dólares), distribuídos em pouco mais de 630 fundos disponíveis, segundo dados da Asociación Mexicana de Instituciones Bursátiles.
Embora esse número reflita expansão —com crescimentos anuais próximos de 25%—, sua dimensão relativa ainda é limitada: o total de ativos equivale a apenas 14% do PIB, muito abaixo dos níveis observados em mercados desenvolvidos ou até mesmo em alguns emergentes.
Para os protagonistas do setor, é claro: a limitada profundidade do mercado se explica, em grande medida, por fatores estruturais como a baixa inclusão financeira e a pouca penetração de instrumentos de investimento na população.
No México, a poupança continua concentrada em instrumentos bancários tradicionais, o que restringe o fluxo de recursos para veículos mais sofisticados, como os fundos. Soma-se a isso uma oferta ainda pouco diversificada —embora em expansão— e barreiras operacionais que historicamente limitaram a massificação do produto, como a distribuição concentrada em canais bancários.
Em paralelo, a indústria apresenta um alto grau de concentração. De acordo com informações do setor, mais de 50% dos ativos estão nas mãos de apenas três operadoras: BBVA, BlackRock e Santander Asset Management, o que reflete uma estrutura oligopolista na gestão de ativos. Essa concentração não apenas limita a concorrência, como também reduz a inovação em produtos e estratégias, afetando a profundidade e sofisticação do mercado.
Essa combinação de tamanho relativo reduzido e alta concentração implica que o mercado mexicano de fundos ainda não consegue cumprir plenamente sua função de canalizar a poupança para investimento produtivo de forma eficiente e diversificada. Autoridades como a Comisión Nacional Bancaria y de Valores (CNBV) reconheceram a necessidade de ampliar a oferta, simplificar o acesso e promover a digitalização, além de introduzir novas estruturas como fundos de hedge ou veículos simplificados para impulsionar o crescimento do setor.
Qual é o tamanho do mercado de fundos mexicano?
Em termos absolutos, a indústria mexicana atingiu em 2026 um máximo histórico de mais de 5 trilhões de pesos em ativos sob gestão (aproximadamente 290.000 milhões de dólares). Esse número parece relevante em termos nominais, mas muda significativamente ao ser colocado em contexto: representa apenas cerca de 14% do PIB.
Na comparação regional, o México é o maior mercado de fundos da América Latina —muito acima da América Central, cuja indústria é até 40 vezes menor—, mas perde dinamismo frente a economias mais sofisticadas como Brasil ou Chile, onde a penetração de ativos sob gestão em relação ao PIB costuma se situar em níveis significativamente mais altos (em alguns casos superiores a 50%-70%, segundo padrões do setor). Isso sugere que o problema mexicano não é tanto de escala absoluta, mas de profundidade financeira relativa, como já apontaram analistas em diversos fóruns dentro e fora do país.
A brecha torna-se ainda mais evidente ao comparar com seu principal referencial econômico: os Estados Unidos. Embora o dado exato varie conforme a metodologia (fundos mútuos vs. total de gestão de ativos), a indústria americana é medida em dezenas de trilhões de dólares —apenas os ETFs superavam 10,5 trilhões de dólares em 2025—, e o total do ecossistema de fundos e gestão de ativos supera amplamente o tamanho do seu PIB. Em outras palavras, enquanto no México os fundos equivalem a cerca de 14% do produto, nos EUA o mercado representa várias vezes o PIB, refletindo um sistema financeiro muito mais profundo, líquido e diversificado.
Como corrigir o problema?
A brecha estrutural do mercado de fundos no México —caracterizada por baixa penetração, limitada profundidade e alta concentração— não é um fenômeno imutável. Diversos reguladores, entidades do setor e especialistas concordam que sua correção passa por uma combinação de reformas regulatórias, ampliação da base de investidores e modernização da distribuição.
Apesar dos avanços nesse sentido nos últimos anos, um dos principais consensos no setor é que a democratização do acesso é um dos eixos centrais para reduzir o atraso e ampliar a cobertura. O próprio presidente da Comisión Nacional Bancaria y de Valores (CNBV), Ángel Cabrera Mendoza, destacou que o desafio é “ampliar a oferta, com uma abertura mais digital e simplificada”, o que implica reduzir barreiras de entrada e adaptar produtos a diferentes perfis de investidor.
Na mesma linha, Álvaro García Pimentel, presidente da Asociación Mexicana de Instituciones Bursátiles (AMIB), ressaltou que existem condições para que a indústria continue crescendo nos próximos anos, desde que se fortaleça seu alcance a novos segmentos da população.
Isso é apenas o começo. Outra tarefa consiste em ampliar a base de investidores. Evidências do Banco de México mostram que o desenvolvimento de mercados financeiros mais profundos depende da incorporação tanto de investidores institucionais quanto de pessoas físicas, além do incentivo à participação estrangeira, que “aumenta a base de investidores… e contribui para a inovação financeira”. No caso dos fundos, isso implica integrar de forma mais ativa atores como seguradoras, afores e plataformas digitais, além de promover educação financeira para aumentar a participação das pessoas físicas, historicamente reduzida.
Além disso, outro componente fundamental é diversificar a oferta de produtos. Atualmente, uma proporção dominante dos ativos no México está concentrada em instrumentos de dívida, o que limita o desenvolvimento do mercado de capitais e a sofisticação do setor. Para corrigir isso, especialistas apontam a necessidade de impulsionar fundos de renda variável, alternativos e temáticos, além de veículos mais flexíveis —incluindo ETFs e fundos internacionais— que permitam uma melhor alocação de portfólio e maior concorrência entre gestoras.
Também é essencial reconfigurar os canais de distribuição. O predomínio da banca tradicional como principal canal contribuiu para a concentração do mercado. A digitalização, o uso de fintechs e a arquitetura aberta podem reduzir custos, ampliar a concorrência e facilitar o acesso em massa. Em mercados mais desenvolvidos, essa mudança foi determinante para aumentar a penetração dos fundos na poupança das famílias.
Mas nada disso faria sentido sem um elemento essencial: o fortalecimento do arcabouço regulatório deve ser orientado para incentivar a concorrência sem comprometer a estabilidade. Desde reformas anteriores —como as que permitiram gestoras independentes e maior participação estrangeira— observou-se que mudanças regulatórias podem impulsionar o crescimento e a diversificação do setor. O próximo passo, segundo analistas, é avançar para modelos mais flexíveis que facilitem a inovação financeira.
A evidência sugere que fechar a brecha estrutural do mercado de fundos no México exige uma estratégia integral: mais inclusão financeira, maior diversidade de produtos, canais de distribuição mais abertos e um ambiente regulatório que estimule a concorrência. Sem esses elementos, o crescimento observado nos últimos anos dificilmente se traduzirá em um mercado mais profundo e menos concentrado.
Em conclusão: o mercado mexicano de fundos alcançou uma massa crítica relevante em termos absolutos, mas continua pequeno em proporção à sua economia e marginal frente aos EUA, o que confirma que a brecha estrutural não é conjuntural, mas inerente ao nível de desenvolvimento do sistema financeiro do país.



