A Coreia do Sul vive um momento paradoxal. Após uma forte recuperação em 2025 e um início sólido de 2026, seu mercado acionário pode parecer adequadamente valorizado à primeira vista. No entanto, abaixo da superfície persiste um debate estrutural que vai além dos temas sobre inteligência artificial ou geopolítica. A questão central não é se a Coreia participa do ciclo global de crescimento, mas se conseguirá fechar de forma sustentada o chamado “Korea Discount”.
Dois motores tangíveis impulsionaram o renovado interesse dos investidores no país coreano. Por um lado, a posição central do país na cadeia de suprimentos de memória vinculada à inteligência artificial, especialmente em tecnologias de alta largura de banda. Por outro, o crescente peso econômico do ciclo de exportações de defesa. Ambos os fatores reforçam a relevância estratégica da Coreia no atual ambiente global.
Mas a verdadeira prova para uma revalorização duradoura não reside apenas no ciclo tecnológico nem na demanda externa. O núcleo do debate está na governança corporativa, na alocação eficiente de capital e na capacidade das reformas de abordar as raízes estruturais do desconto histórico do mercado coreano.
Agenda de reformas
A agenda de reformas orientadas ao acionista aponta na direção correta. Medidas como o cancelamento obrigatório de ações em tesouraria ou mudanças na tributação dos dividendos buscam melhorar a eficiência do capital e reforçar a disciplina corporativa. No entanto, os mercados não reavaliam com base em intenções, mas em fatos.
O principal risco é o cronograma e a credibilidade. As empresas raramente modificam de forma estrutural suas políticas de capital com base em propostas preliminares. Até que as reformas sejam legisladas e contem com datas claras de implementação, é pouco provável que ocorra uma mudança sistêmica na política de dividendos ou nos programas de recompra.
Alguns avanços já são visíveis. Várias grandes empresas começaram a cancelar ações em tesouraria, antecipando-se a um ambiente mais exigente. Esse comportamento sugere que a direção das reformas está sendo internalizada. No entanto, a resistência de determinados grupos empresariais a mudanças mais profundas na legislação societária lembra que o caminho reformista não é linear.
Para que o desconto estrutural desapareça de forma permanente, a política deve se traduzir em comportamentos corporativos recorrentes: maiores dividendos, planos plurianuais de recompra, cancelamentos sistemáticos de ações e padrões de governança que reduzam o prêmio de risco aplicado pelos investidores.
O “Korea Discount”
A redução do “Korea Discount” é evidente, mas não definitiva. A transição para uma revalorização estrutural exige uma sequência de condições sustentadas ao longo do tempo. Em primeiro lugar, os lucros devem continuar se confirmando. A exposição da Coreia ao ciclo global de investimento em capital vinculado à inteligência artificial, especialmente em memória avançada, reforça o argumento fundamental. O aumento não linear do conteúdo de memória em sistemas de IA gera uma dinâmica estrutural que pode sustentar os resultados do setor.
Em segundo lugar, a alocação de capital deve se tornar sistemática e não episódica. O excesso de caixa não pode ser tratado como uma rede de segurança permanente. Os investidores observam com atenção a adoção de metas explícitas de payout e a padronização de políticas de recompra e cancelamento.
Em terceiro lugar, devem ser reforçadas as proteções aos acionistas minoritários e melhorada a infraestrutura de mercado. A complexidade dos grandes conglomerados, a opacidade em determinadas operações relacionadas e a percepção de tratamento desigual foram fatores históricos do desconto. Sem avanços claros nesse campo, o prêmio de risco dificilmente desaparecerá.
Ambiente político
Por fim, a estabilidade política é tão relevante quanto a ambição reformista. Os investidores internacionais precisam confiar que as mudanças sobreviverão aos ciclos políticos. Se as reformas forem percebidas como conjunturais, o impulso se dissipará. Se se consolidarem, a compressão do prêmio de risco poderá sustentar múltiplos mais elevados.
A evolução do won frente ao dólar influenciou os retornos, especialmente para investidores de fora do país. No entanto, a fraqueza da moeda não constitui necessariamente um argumento estrutural contra o mercado coreano. Neste ciclo, um won mais fraco atuou simultaneamente como apoio à competitividade exportadora e como fator de volatilidade para o investidor estrangeiro. Se os diferenciais de juros nos Estados Unidos diminuírem e a política interna contribuir para estabilizar a moeda, esse elemento pode perder peso como obstáculo estrutural.
Além disso, a dinâmica de fluxos não depende exclusivamente do capital estrangeiro. A alocação dos investidores institucionais domésticos e o comportamento do investidor de varejo também podem desempenhar um papel relevante na demanda marginal por ações coreanas. Em última instância, o motor decisivo continua sendo o desempenho dos lucros nos setores-chave, especialmente em semicondutores, onde fundamentos sólidos podem compensar episódios de ruído cambial ou geopolítico.
Elementos-chave
A Coreia do Sul se encontra em uma fase intermediária. O mercado já reconhece três elementos-chave: um motor de lucros vinculado à inteligência artificial com relevância global, um ciclo de exportações de defesa com escala real e uma narrativa de governança corporativa que começou a se traduzir em passos concretos.
A questão agora é a consistência ao longo do tempo. Se as reformas se institucionalizarem e as empresas adotarem estruturas claras e recorrentes de retorno ao acionista ao longo de 2026 e além, a Coreia poderá consolidar sua transição para uma revalorização estrutural. Caso contrário, se as reformas permanecerem como catalisadores conjunturais associados a manchetes políticas, o risco é que o impulso atual se dilua. Por ora, os sinais são encorajadores. Mas o mercado não premiará a Coreia pelo que promete ser, e sim pelo que demonstrar ser de forma sustentada.
Tribuna elaborada por Marcus Weyerer, diretor de estratégia de investimento em ETFs para EMEA da Franklin Templeton ETFs.




