O chamado Halo Trade, como uma estratégia de investimentos defensiva em relação às ações e ativos de empresas de tecnologia, está impactando o mercado imobiliário residencial de luxo. É o que aponta a análise de Antonio DaGrosa, sócio-executivo da DaGrosa Capital Development Partners – gestora imobiliária com sede em Miami, Flórida. Sua previsão é que o mercado residencial de Miami esteja bem posicionado para capturar a rotação de capital e continuar com o movimento de valorização dos últimos anos.
Compradores e investidores da América Latina têm demonstrado forte apetite para investir em imóveis na região. Os compradores internacionais representaram aproximadamente 15% do volume total de vendas residenciais no sul da Flórida em 2025 — bem acima da média nacional. Quase metade das compras de condomínios em novos empreendimentos foi realizada por estrangeiros, e 86% desses compradores vieram da América Latina. Brasil, Colômbia, Argentina e México lideram a demanda, com compradores em busca de ativos denominados em dólar, segurança jurídica e qualidade de vida.
Em entrevista exclusiva à Funds Society, o executivo analisa o cenário do momento atual e as perspectivas do mercado imobiliário de Miami e os movimentos dos investidores para a aplicação de recursos em empreendimentos e veículos financeiros que atuam na região. Confira a seguir os principais trechos da entrevista:
Como a nova onda do Halo Trade afeta o mercado financeiro em geral?
Antonio DaGrosa: Este é um dos movimentos de alocação de capital mais significativos que estamos observando em 2026. A inteligência artificial está transformando diversos setores, como de software, de serviços financeiros, de mídia e marketing, em um ritmo que surpreendeu muitos investidores. Nas bolsas de valores, já vimos uma rotação significativa de capital saindo de empresas de tecnologia e software com múltiplos elevados e migrando para ativos físicos e tangíveis: imóveis, indústria e commodities. O setor de software, por exemplo, passou por impactos no início deste ano, à medida que investidores perceberam que agentes de IA podem reduzir drasticamente a demanda por produtos tradicionais de SaaS praticamente da noite para o dia.
Como está afetando a postura dos investidores institucionais em relação ao mercado imobiliário?
DaGrosa: Para investidores institucionais, isso cria uma tese poderosa em torno dos chamados ativos reais. O mercado imobiliário, especialmente o residencial de luxo bem localizado, representa uma reserva de valor e uma redução de volatilidade que a inteligência artificial não pode “disruptar”. As pessoas sempre precisarão de espaços físicos para viver, e a demanda por propriedades premium em localizações disputadas é impulsionada por segurança, atratividade cultural e de lifestyle e preservação de patrimônio.
Como vocês têm atuação no mercado de Real Estate de Miami, como isso está impactando o setor na região?
DaGrosa: Miami está particularmente bem-posicionada para capturar essa rotação de capital porque oferece uma combinação rara: valor em ativos tangíveis, acessibilidade internacional, tratamento tributário favorável e forte apelo de estilo de vida. Já estamos observando investidores sofisticados, especialmente da América Latina, onde muitos estão atentos à importância de preservar capital em ativos em dólar — alocando capital de forma mais agressiva no mercado imobiliário de Miami como proteção tanto contra a volatilidade provocada pela IA quanto contra instabilidades políticas e econômicas em seus países de origem.
Avalie o momento atual e as perspectivas do mercado imobiliário de Miami em geral.
DaGrosa: O mercado imobiliário de Miami vive um momento de recalibração saudável. Após vários anos de valorização muito forte, impulsionada pela migração durante a pandemia, políticas fiscais e fluxo recorde de capital internacional, o mercado entrou em uma fase mais madura. O segmento ultra-luxo com propriedades acima de US$ 10 milhões segue apresentando forte desempenho, impulsionado pela oferta limitada e pela demanda contínua de compradores, tanto domésticos quanto internacionais. O preço por pé quadrado no segmento de luxo estabeleceu um novo piso acima de US$ 1.000 e, embora o volume de vendas tenha moderado em 2025, os preços se mantiveram no patamar nos segmentos mais desejados.
Quais as perspectivas para 2026?
DaGrosa: O que torna este momento particularmente interessante é a convergência de fatores positivos em 2026. As taxas de hipoteca estão em queda, com expectativa de alcançar aproximadamente 6% neste ano. Os prêmios de seguro na Flórida começaram a cair em dois dígitos e há um calendário forte de eventos no sul da Flórida. A Fórmula 1, com o GP de Miami e, sobretudo, a Copa do Mundo da Fifa de 2026, onde a cidade receberá sete partidas, estão criando condições para um aumento na atividade de compradores.
Quais outros fatores impactam positivamente os imóveis da região? Como?
DaGrosa: A migração de outros estados, especialmente de Nova York, Nova Jersey, Califórnia e Illinois, segue em níveis elevados. Os setores da economia do Sul da Flórida também estão migrando para os de maior renda — tecnologia, finanças e saúde — o que sustenta a demanda de longo prazo por habitação. Além disso, a taxa de vacância de escritórios em Miami está abaixo da média pré-pandemia, um sinal de que a expansão é real, e não apenas especulativa. Diversos fatores estruturais continuam impulsionando o mercado imobiliário de Miami além dos temas mais evidentes, como migração e rotação de capital provocada pela IA. Minha perspectiva para 2026 é otimista.
Qual a situação do mercado de residências de luxo de Miami?
DaGrosa: Miami ocupa hoje o segundo lugar no mundo — atrás apenas de Dubai — em número de projetos residenciais de marca, onde a residência oferece serviços exclusivos de hospitalidade cinco estrelas, design sofisticado e alto padrão, usualmente assinado por alguma marca de grife ou redes de hotelaria famosas. A convergência entre marcas de hospitalidade de luxo e o mercado residencial reflete uma mudança global nas expectativas dos compradores: hoje, adquirir um imóvel significa também comprar um estilo de vida com serviços e gestão profissional. É a tese, por exemplo, por trás do Kempinski Residences Miami Design District, que traz ao país o primeiro projeto residencial da mais antiga rede de hotéis de luxo da Europa.
Quais os veículos e produtos oferecidos aos investidores que pretendem captar bons retornos com a expansão imobiliária de Miami?
DaGrosa: Existem várias formas de investidores institucionais e profissionais alocarem no crescimento imobiliário de Miami, cada uma com perfis diferentes de risco e retorno. Um deles é o investimento direto em pré-construção. Comprar unidades na fase de pré-lançamento em empreendimentos bem posicionados e com marca consolidada continua sendo um dos pontos de entrada mais atrativos. Outra forma é o co-investimento em desenvolvimento imobiliário ou equity direto do projeto, normalmente voltado para investidores institucionais mais sofisticados. A alocação acontece desde o início, no processo de busca por terreno, passando por todas as etapas.
Tem algum outro veículo de investimento que tem se destacado?
DaGrosa: Outro veículo que vem ganhando força é o crédito mezanino e financiamentos estruturados para desenvolvedores imobiliários. Muitos desenvolvedores no sul da Flórida têm bons projetos, mas acesso limitado ao mercado de capital. Um fundo de crédito mezanino bem estruturado pode preencher essa lacuna, oferecendo retornos ajustados ao risco atrativos e lastreados em ativos reais. Por fim, também há os ativos geradores de renda, como os REITs. Mesmo com níveis recordes de construção, a absorção acompanha o ritmo: a taxa de vacância permanece abaixo de 5% e o aluguel médio mensal gira em torno de US$ 2.385 — o segundo mais alto dos Estados Unidos.



