Durante décadas, a B3 foi praticamente sinônimo de mercado de capitais no Brasil. Mas isso pode estar prestes a mudar nos próximos anos.
Iniciativas locais querem ampliar a estrutura da bolsa brasileira, atuando em diferentes elos da cadeia de mercado: negociação, derivativos, infraestrutura de pós-trade e tecnologia. Ao menos, é o que fizem os fundadores e CEOs de cinco iniciativas — SL Tools, A5X, CSD Brazil e Flowa Technologies & Base Exchange, que integraram o painel “The Future of Brazilian Capital Markets”, realizado nesta segunda-feira (27), no UBS Latin America Investment Conference, em São Paulo, no hotel Grand Hyatt.
Em comum, essas empresas tem a convicção de que custo elevado, concentração excessiva e atraso tecnológico limitam o crescimento do mercado de capitais brasileiro.
SL Tools: renda fixa fora do modo “telefônico”
“O Brasil é um país com uma vocação enorme para renda fixa, mas que ainda opera como se estivesse nos anos 1990”, afirmou Andre Duvivier, fundador da SL Tools. “A gente está falando de um mercado de mais de R$ 1 trilhão emitido em dois anos, ainda muito baseado em telefone e relacionamento pessoal.”
A SL Tools se posiciona como uma plataforma eletrônica de negociação de renda fixa, conectando títulos públicos, crédito privado e produtos bancários em um ambiente com formação de preço em tempo real. A empresa já está autorizada pelos reguladores e em operação desde 2023.
“A nossa ambição é simples de explicar: pegar um mercado que ainda é essencialmente telefônico e levá-lo para um padrão tecnológico moderno, com algoritmos, atualização em tempo real e transparência”, disse Duvivier. “É mais ou menos o que aconteceu com o mercado de ações há 30 anos.”
Segundo ele, a plataforma atende hoje praticamente todo o mercado financeiro — bancos, corretoras, assets e plataformas — e busca melhorar a eficiência de um segmento que já é dominante no Brasil. “Formação de preço melhor não é um luxo, é uma necessidade para o investidor institucional”, afirmou.
A5X: derivativos, competição e pressão por preço
No mercado de derivativos, a proposta da A5X é atacar um problema conhecido dos gestores: concentração de produtos e custos elevados. “Se você olhar a B3 hoje, DI, dólar e juros concentram praticamente tudo”, disse Carlos Alberto Ferreira Filho, cofundador e CEO da A5X. “Quando você olha para fora, existe uma diversidade enorme de contratos e estruturas.”
Segundo o executivo, a diferença de custo é difícil de ignorar. “Em alguns casos, o derivativo no Brasil chega a ser até 17 vezes mais caro do que produtos equivalentes em bolsas como a Eurex ou o S&P”, afirmou. “Isso afeta hedge, afeta arbitragem e afeta o desenvolvimento do mercado como um todo.”
A estratégia da A5X é ser uma bolsa 100% financeira, asset light, focada em derivativos e apoiada desde o início por grandes market makers globais. “A gente não buscou só capital, buscou sócios que ajudassem a tirar o projeto do papel”, disse Ferreira Filho. A expectativa é avançar para a fase de testes regulatórios nos próximos meses.
“O Brasil precisa de uma nova bolsa de derivativos. Todo mundo ganha com isso”, resumiu.
Flowa e Base Exchange: a bolsa nasce do ecossistema
No caso da Flowa Technologies, o caminho é inverso ao tradicional. Antes de pensar em bolsa, a empresa construiu, ao longo de 15 anos, uma posição dominante como provedora de tecnologia de electronic trading. Hoje, sua plataforma conecta 100% das corretoras e mais de 300 gestores de recursos.
“Nada disso seria possível sem tecnologia fora da bolsa, indo para corretoras e gestores”, disse Francisco Gurgel, fundador da Flowa e da Base Exchange. “Sem isso, não existe competição de verdade.”
A Base Exchange surge a partir desse ecossistema já conectado, com planos de iniciar operações em ações e, depois, derivativos. “A gente costuma brincar que começou uma bolsa de trás para frente”, afirmou Gurgel. “Hoje, cerca de 10% do volume negociado na B3 passa pela nossa tecnologia antes de chegar lá.”
Para ele, o maior desafio não é lançar a bolsa, mas fazê-la funcionar no dia a dia. “Lançar a bolsa não é o fim, é o começo. Execução, supervisão, autorregulação — tudo isso começa depois”, disse. “A bolsa é só o palco. Os verdadeiros atores são corretoras, gestores e investidores.”
CSD Brazil: infraestrutura, interoperabilidade e risco sistêmico
Enquanto negociação e derivativos concentram os holofotes, a CSD Brazil atua na camada menos visível — e talvez mais crítica — do mercado: registro, depósito centralizado e liquidação. Desde 2017, a empresa vem construindo uma alternativa à infraestrutura dominante.
“A infraestrutura é como o pneu do carro: ninguém lembra da marca, mas ela afeta todo mundo”, afirmou Edivar Queiroz, CEO da CSD Brazil. Hoje, a companhia já registra cerca de R$ 15 trilhões em ativos e começa a ganhar tração também na liquidação.
O ponto central do discurso de Queiroz foi a defesa da interoperabilidade. “Sem interoperabilidade, você fragmenta o mercado”, disse. “Com interoperabilidade, você permite que sistemas diferentes conversem entre si, como acontece na telefonia.”
Para ele, o engajamento do mercado é decisivo. “A gente está aqui para servir os participantes. Eles são os beneficiários disso tudo”, afirmou. “Se o mercado não se interessar por essa agenda, o Brasil corre o risco de cair ainda mais no ranking global.”
Apesar de atuarem em frentes distintas, os quatro projetos compartilham uma visão comum: o arcabouço regulatório brasileiro evoluiu a ponto de permitir competição, mas o sucesso dessas iniciativas depende menos da licença e mais da adoção pelos participantes.
“Integração é um inferno”, resumiu Ferreira Filho, da A5X, ao falar sobre a conexão com corretoras. “Não é tecnicamente impossível, mas os sistemas estão sobrecarregados e só vale a pena se houver ganho claro para o mercado.”
Para Gurgel, o movimento é inevitável. “O Brasil é a décima maior economia do mundo e apenas o 23º mercado de capitais”, disse. “Existe um espaço enorme para crescer, e essas empresas não precisam se canibalizar para isso.”
