Após algum distanciamento das primeiras semanas de janeiro, especialistas concordam que a prisão de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos teve um impacto geopolítico e financeiro significativo. Embora o foco permaneça nos mercados de petróleo e ouro, algumas gestoras também estão observando possíveis consequências para os mercados de renda fixa da América Latina.
“A operação dos Estados Unidos na Venezuela marca um momento decisivo para a América Latina, com implicações para investidores em renda fixa. Embora a possibilidade de um maior envolvimento dos EUA introduza novos riscos, ela também cria oportunidades ao potencialmente se tornar uma fonte de redução dos prêmios de risco político. Nosso cenário-base é que um maior engajamento dos EUA apoiará o impulso de reformas na Colômbia, no Brasil e no México, fortalecendo os fundamentos a favor dos títulos locais da América Latina”, afirmam analistas da JP Morgan AM.
De acordo com a visão da gestora, para investidores em renda fixa, esses eventos são uma faca de dois gumes. “Por um lado, um maior engajamento dos EUA, levando a governos mais ortodoxos do ponto de vista econômico, poderia acelerar o impulso de reformas em alguns países, melhorando a governança e a disciplina fiscal. Por outro lado, o risco de reação política adversa ou de consequências não intencionais permanece elevado, especialmente em mercados com instituições frágeis ou movimentos políticos enraizados. Ainda assim, acreditamos que o caso fundamental para aumentar a exposição a determinados títulos latino-americanos se fortaleceu. Países que provavelmente se beneficiarão do apoio dos EUA, ou onde as perspectivas de reformas melhoram, devem observar uma redução nos prêmios de risco, enquanto aqueles mais expostos à incerteza da política econômica podem continuar ficando para trás em relação a outras regiões de mercados emergentes”, acrescentam na JP Morgan AM.
Implicações para os investidores
Historicamente, como relembra Salman Ahmed, chefe de macro global e alocação estratégica de ativos da Fidelity International, quando riscos extremos, como um conflito prolongado, se dissipam, a dívida soberana em default ou sob estresse em mercados emergentes tende a se recuperar diante das expectativas de mudança de regime, alívio de sanções e eventual reestruturação. Portanto, ele considera provável que “um padrão semelhante ocorra desta vez, com sinais iniciais de que o regime está disposto a cooperar com os Estados Unidos, o que poderia impulsionar ainda mais os preços dos títulos”.
Não se pode esquecer as características específicas do mercado de dívida da América Latina. Michael Strobaek, diretor global de investimentos da Lombard Odier, explica que, enquanto os índices de ações de mercados emergentes são amplamente dominados pela China, os índices de títulos denominados em dólar incluem uma maior proporção de títulos de dívida latino-americana. Assim, ele espera que, após a prisão de Maduro, haja “uma maior compressão dos spreads nos títulos de mercados emergentes, à medida que o crescimento dessas economias permanece sustentado enquanto os rendimentos de curto prazo dos EUA continuam a cair”.
No entanto, nem toda a dívida latino-americana reagiria de forma uniforme diante desse novo choque geopolítico. Nesse sentido, a Mirabaud deixa claro que, na dívida emergente, a situação atual da Venezuela trará “maior diferenciação entre países com fundamentos sólidos e situações idiossincráticas extremas”. Especificamente, a dívida soberana e quase soberana da Venezuela “permanece em default”, observa a gestora, afirmando que o perfil desse ativo “permanece problemático e dependente dos acontecimentos”, além de estar sujeito “a um processo político e jurídico claramente definido”. A gestora também se refere à dívida colombiana, “indiretamente exposta devido à sua proximidade geográfica”. Nesse caso, considera “possível” a ocorrência de volatilidade de curto prazo, “sem que isso represente um desafio imediato para seus sólidos fundamentos macrofinanceiros”.
Mas existe a possibilidade de retorno da Venezuela aos mercados internacionais de dívida. Se isso acontecer, Christian Schulz, economista-chefe da Allianz GI, afirma que é possível que “os spreads soberanos de países vizinhos se estreitem à medida que a estabilidade melhora”. Ele também acredita que investidores em dívida distressed podem encontrar oportunidades em títulos emitidos pelo Estado venezuelano ou pela Petróleos de Venezuela (PDVSA). Alex Veroude, chefe de renda fixa da Janus Henderson, expressa uma visão semelhante, afirmando que, no curto prazo, “os títulos venezuelanos poderiam receber suporte inicial, à medida que os mercados precificam a perspectiva de normalização da política”.
Menor influência externa
Segundo a Capital Group, é importante lembrar que a dívida de mercados emergentes denominada em moeda local é cada vez mais determinada pelas taxas de juros domésticas, refletindo mudanças estruturais que vêm ocorrendo na composição dos mercados e nos arcabouços de política econômica. “A menor participação de investidores estrangeiros reduziu a influência externa, permitindo que a política monetária dos respectivos países desempenhe um papel dominante na formação de preços. Essa mudança de tendência tem sido apoiada pela credibilidade monetária e fiscal, pela maior profundidade dos mercados de capitais e pelo crescimento do investimento institucional, que fornece demanda estável mesmo em mercados que anteriormente dependiam fortemente de financiamento externo”, explicam.
Atualmente, os bancos centrais de muitos mercados emergentes já estão bastante avançados em seus respectivos ciclos de corte de juros e, embora seja esperada uma desaceleração no ritmo dos cortes em 2026, o ciclo ainda não terminou, e o espaço para novos cortes variará significativamente entre as regiões. “O prêmio de rendimento oferecido pela dívida de mercados emergentes em moeda local permanece atrativo, o que pode proporcionar proteção contra episódios de volatilidade e um nível interessante de renda mesmo em um contexto de queda dos rendimentos globais. A exposição dos investidores à dívida de mercados emergentes em moeda local vem se recuperando de forma constante após vários anos de saídas de capital, apoiada por fundamentos melhorados e pelo nível atrativo de rendimento real. Ainda assim, permanece abaixo dos níveis pré-pandemia, criando um pano de fundo técnico favorável para a classe de ativos. As moedas de mercados emergentes também podem contribuir para os retornos, já que algumas se beneficiam das elevadas avaliações do dólar americano e da redução das vantagens de rendimento”, explicam na Capital Group.




