A Aberdeen Investments investe há mais de 30 anos em dívida emergente (EMD), com ampla experiência tanto em mercados de fronteira de rápido crescimento quanto em economias consolidadas, nos âmbitos corporativo e soberano. Siddharth Dahiya, diretor global de EMD, aborda nesta entrevista as oportunidades, os riscos, as inovações e as tendências atuais do investimento no setor, a partir dessa experiência.
Por que os investidores deveriam considerar a dívida emergente em 2026 e quais são algumas das oportunidades mais atraentes?
A dívida emergente entra em 2026 em muito boa forma. Em toda a classe de ativos, estamos observando uma série de dinâmicas positivas. Os títulos soberanos em moeda forte, por exemplo, estão passando por uma onda de melhorias em suas classificações de crédito, revertendo uma tendência de uma década de rebaixamentos. Essa mudança indica uma melhora dos fundamentos e uma maior resiliência em muitas economias emergentes.
A dívida em moeda local também se destaca. Apesar da recente depreciação, o dólar americano continua caro, o que significa que os rendimentos nos mercados locais emergentes são relativamente atrativos. Esse ambiente oferece aos investidores a possibilidade de obter renda e valorização cambial, uma combinação relativamente pouco frequente nos mercados atuais.
No âmbito corporativo, os fundamentos são sólidos. Os balanços das empresas dos mercados emergentes são os mais robustos desde a crise financeira global, graças a uma gestão prudente e a fatores técnicos favoráveis. A demanda por dívida corporativa emergente está atualmente superando a oferta, o que se traduziu em sólidos retornos para os investidores.
Os mercados de fronteira, desde a recuperação impulsionada pelo ouro em Gana até os avanços nas reformas do Egito, também se mostram muito promissores. Muitos saíram fortalecidos da turbulência da pandemia. A disciplina fiscal melhorou, as reservas em moeda estrangeira estão mais sólidas e os perfis de dívida são mais sustentáveis.
Em resumo, a dívida emergente está se beneficiando de uma série de forças positivas em toda a classe de ativos, o que a torna uma oportunidade atrativa e bem diversificada para os investidores.
Como você espera que evolua o panorama da dívida emergente nos próximos 12 meses?
Consideramos que este ano será um período de momentum constante, mais do que de mudanças drásticas. O que chama nossa atenção é o crescente interesse pela dívida em moeda local, especialmente nos mercados de fronteira que costumavam passar despercebidos.
Os investidores estão começando a olhar para eles, atraídos pela melhora dos fundamentos e pelos rendimentos atrativos desses mercados.
Após vários anos de saídas significativas, agora estamos observando um retorno das entradas líquidas, uma mudança que reflete a confiança renovada nessa classe de ativos. Acreditamos que esse momentum positivo continuará no futuro imediato.
Quais mercados de fronteira se destacam por oferecer um potencial único e quais são os riscos?
Os mercados de fronteira apresentam um conjunto diverso de oportunidades, cada uma com suas próprias características. Os riscos aqui não têm tanto a ver com perturbações macroeconômicas gerais, mas sim com fatores específicos de cada país. Por exemplo, algumas economias dependem fortemente das exportações de petróleo, o que as torna vulneráveis às flutuações de preços.
Neste ano, já vimos como os Estados Unidos capturaram o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro. A Venezuela está em default desde 2017 e, embora os títulos tenham se recuperado após a notícia, continuam sendo negociados muito abaixo de seu valor nominal. É provável que o valor final de recuperação desses títulos seja superior aos preços atuais de mercado, dado o potencial de valorização de um instrumento vinculado ao petróleo.
Há muitos outros motivos para o otimismo. Tomemos como exemplo Gana. Sua recente reestruturação foi um sucesso, enquanto o boom do ouro impulsionou sua conta corrente para um superávit e elevou as reservas em moeda estrangeira para mais de 11 bilhões de dólares americanos. Egito e Nigéria também merecem destaque, com tendências desinflacionárias e altos rendimentos locais que geram retornos reais atrativos.
Portanto, o universo de fronteira oferece oportunidades em todos os espectros, desde créditos em dólar e em moeda local com bom desempenho até situações de estresse com potencial de recuperação. A chave está em compreender a narrativa e o perfil de risco únicos de cada mercado.
Existem estratégias temáticas dentro da dívida emergente às quais os investidores devem prestar atenção?
Há vários temas que estão moldando o panorama da dívida emergente. A distinção entre exportadores e importadores de petróleo continua sendo importante, assim como o impacto das tarifas globais e a tendência atual de nearshoring.
Eventos geopolíticos, como uma possível resolução do conflito entre Rússia e Ucrânia, poderiam ser transformadores. Um cessar-fogo ou um acordo de paz provavelmente desencadearia um apoio e um investimento multilaterais substanciais, especialmente na Ucrânia. Também poderia influenciar os preços da energia, beneficiando economias emergentes nas quais os custos energéticos impulsionaram a inflação.
As tarifas criaram vencedores e perdedores. Por exemplo, esperava-se que o México se beneficiasse do acesso preferencial no âmbito do acordo comercial USMCA, mas a falta de investimentos de acompanhamento limitou esses ganhos. A Índia, que enfrenta tarifas elevadas, é menos afetada devido à sua economia relativamente fechada e ao fato de que suas exportações se concentram em serviços isentos de tarifas, em vez de bens.
Como se equilibra a exposição à dívida soberana em relação à corporativa no ambiente atual?
Acreditamos que tanto a dívida soberana quanto a corporativa têm um papel importante a desempenhar em uma carteira bem construída. A dívida soberana oferece uma maior dispersão de ratings, proporcionando acesso a oportunidades de maior rendimento, enquanto a dívida corporativa tende a ser de maior qualidade, com uma maior proporção de emissores com grau de investimento. Os títulos soberanos geralmente têm uma duração mais longa, o que os torna mais sensíveis aos movimentos das taxas de juros. Dado que se espera que as taxas caiam, os títulos soberanos podem apresentar melhor desempenho.
Por outro lado, os títulos corporativos podem oferecer características defensivas quando as taxas sobem ou a volatilidade aumenta. Os investidores podem combinar esses segmentos, ajustando a composição às condições de mercado e aos seus objetivos. Essa diversificação ajuda a gerenciar o risco e a aproveitar oportunidades em todo o espectro do mercado.
Qual é o papel da exposição cambial na rentabilidade da dívida emergente e como vocês gerenciam o risco cambial?
As flutuações cambiais são um componente-chave da narrativa da dívida emergente, especialmente nos mercados locais. No ano passado, a valorização das moedas frente ao dólar contribuiu de forma significativa para o desempenho. Os investidores podem se beneficiar tanto dos ganhos cambiais quanto da compressão dos rendimentos nos mercados locais. Se o dólar continuar se enfraquecendo, a dívida emergente em moeda local deverá continuar atrativa. A gestão do risco cambial é fundamental, especialmente para os emissores corporativos.
Prestamos muita atenção à exposição das empresas ao risco cambial e preferimos aquelas que possuem proteções naturais, como receitas e passivos denominados em dólares. Quando não existem proteções naturais, buscamos estratégias sólidas de hedge sintético para mitigar o risco. No final, tudo se resume à disciplina e a garantir que a carteira possa suportar qualquer flutuação cambial repentina.
Como você acredita que as mudanças na política monetária global, especialmente possíveis cortes de juros, afetarão o desempenho da dívida emergente?
Os cortes de juros em nível global são uma boa notícia para a dívida emergente. Taxas livres de risco mais baixas aumentam a atratividade dos mercados com maior rendimento, como os emergentes, incentivando os investidores a buscar retornos adicionais. Quando os títulos do Tesouro dos Estados Unidos oferecem rendimentos mais baixos, aumenta o incentivo para investir em dívida emergente, impulsionando as entradas de capital e sustentando o desempenho.
Condições financeiras mais frouxas também significam que há mais capital disponível para os mercados emergentes, o que frequentemente cria um círculo virtuoso de investimento e crescimento.
Além disso, os cortes de juros costumam exercer pressão de baixa sobre o dólar americano, o que pode melhorar ainda mais a rentabilidade das estratégias de dívida emergente em moeda local.
Quais catalisadores poderiam evidenciar o valor da dívida emergente ao longo deste ano?
Há muitos. Reformas específicas de cada país, reestruturações bem-sucedidas e eventos geopolíticos podem fazer a diferença. Também é importante o aumento da atenção e dos fluxos dos investidores. Apesar de os mercados emergentes representarem cerca de metade do crescimento global, eles ainda constituem uma pequena parcela da maioria das carteiras. Uma mudança secular em direção a uma maior alocação em mercados emergentes poderia destravar um valor significativo para os investidores.
Para os investidores que estão considerando essa classe de ativos atualmente, quais estratégias de alocação fazem sentido: ativa versus passiva, moeda forte versus moeda local?
A gestão ativa é a opção mais sensata. A classe de ativos é diversa e idiossincrática, e as evidências mostram que os gestores ativos superam consistentemente as abordagens passivas. Em um mercado tão complexo, a seleção de ativos, a avaliação de riscos e a análise de países por especialistas agregam um valor significativo que as exposições passivas simplesmente não conseguem replicar.
A escolha entre moeda forte e moeda local depende da tolerância ao risco. A moeda local oferece maior potencial, mas envolve maior volatilidade, enquanto a moeda forte pode proporcionar características defensivas, especialmente nos segmentos com grau de investimento.
A boa notícia? Todas as áreas da dívida emergente têm algo a oferecer neste ano, permitindo que os investidores ajustem as alocações de acordo com seus objetivos e perspectivas de mercado.
Há muitos. Reformas específicas de cada país, reestruturações bem-sucedidas e eventos geopolíticos podem fazer a diferença. Também é importante o aumento da atenção e dos fluxos dos investidores. Apesar de os mercados emergentes representarem cerca de metade do crescimento global, eles ainda constituem uma pequena parcela da maioria das carteiras. Uma mudança secular em direção a uma maior alocação em mercados emergentes poderia destravar um valor significativo para os investidores.
Para os investidores que estão considerando essa classe de ativos atualmente, quais estratégias de alocação fazem sentido: ativa versus passiva, moeda forte versus moeda local?
A gestão ativa é a opção mais sensata. A classe de ativos é diversa e idiossincrática, e as evidências mostram que os gestores ativos superam consistentemente as abordagens passivas. Em um mercado tão complexo, a seleção de ativos, a avaliação de riscos e a análise de países por especialistas agregam um valor significativo que as exposições passivas simplesmente não conseguem replicar.
A escolha entre moeda forte e moeda local depende da tolerância ao risco. A moeda local oferece maior potencial, mas envolve maior volatilidade, enquanto a moeda forte pode proporcionar características defensivas, especialmente nos segmentos com grau de investimento.
A boa notícia? Todas as áreas da dívida emergente têm algo a oferecer neste ano, permitindo que os investidores ajustem as alocações de acordo com seus objetivos e perspectivas de mercado.




