deterioração das contas públicas e a dificuldade de viabilizar um ajuste fiscal colocaram a França entre as preocupações dos gestores de dívida soberana europeia. Os juros mais altos pressionam o orçamento, enquanto o impasse político alimenta dúvidas sobre a estabilização do endividamento.
“A França é um bom exemplo das dificuldades que as economias desenvolvidas enfrentam para controlar o gasto público”, afirma Erick Muller, diretor de Estratégia de Mercados e Produtos da Muzinich & Co, em análise publicada pela Funds Society.
A tensão também envolve protestos contra cortes de gastos e descontentamento com a inflação, conforme relata a Funds Society.
A conta dos juros cresce
Segundo Muller, a despesa anual com juros pode passar de aproximadamente € 80 bilhões em 2026 para € 92 bilhões em 2027 e perto de € 100 bilhões em 2028. O executivo avalia que a desaceleração econômica e a proximidade das eleições de 2027 dificultam uma resposta fiscal.
Em relatório de 6 de outubro, o Tesouro francês projeta uma dívida pública de 119,3% do PIB em 2026 e 121,7% em 2027, ante 115,7% em 2025. Mesmo com o ajuste previsto para o próximo ano, o déficit permaneceria acima do necessário para estabilizar a relação dívida/PIB.
A alta dos juros chega gradualmente às contas públicas: conforme títulos antigos vencem, o governo precisa refinanciá-los a taxas maiores. O Tesouro projeta que a despesa com juros do conjunto das administrações públicas passe de 2,2% do PIB em 2025 para 3,7% em 2030.
O prazo elevado da dívida e a diversificação da base de investidores ajudam a amortecer esse impacto, segundo o Tesouro. Ainda assim, a trajetória apresentada pelo governo prevê queda da relação dívida/PIB apenas a partir de 2029.
Mercado distingue o risco de cada país
Para Kristina Hooper, estrategista-chefe de mercados do Man Group, os investidores diferenciam os países pela trajetória fiscal e pela capacidade política de corrigir desequilíbrios. Em análise de 13 de outubro, ela observa que, nas duas semanas até o dia 9, os juros franceses de dez anos subiram mais do que os de qualquer outra economia do G7.
Naquele momento, o custo de financiamento francês nesse prazo chegou a superar o italiano em 30 pontos-base, ou 0,30 ponto percentual. Na avaliação da estrategista, o movimento mostra que o mercado considera também os esforços de ajuste e a direção das contas públicas.
Hooper ressalta que o comportamento dos títulos ainda se aproxima mais de uma diferenciação entre emissores do que de uma repetição da crise da dívida europeia. A possibilidade de contágio, contudo, continua no radar.
Prêmio maior exige cautela
A abertura dos spreads tampouco representa, por si só, uma oportunidade de compra. Em comentário de 8 de outubro, Robert Burrows, gestor da M&G, chamou atenção para o diferencial de aproximadamente 150 pontos-base entre os títulos franceses de dez anos e os alemães.
“Um spread pode estar historicamente amplo e ainda oferecer compensação inadequada pelo que vem pela frente”, afirma. Para Burrows, comparar os preços apenas com o histórico francês pode subestimar os riscos de um ambiente fiscal e político diferente.
O gestor também aponta um dilema para as instituições europeias. Um apoio incondicional poderia reduzir os incentivos ao ajuste e criar expectativas semelhantes em outros países. A ausência de apoio, por outro lado, poderia intensificar a alta dos custos de financiamento e transmitir a pressão ao restante da união monetária.
Na avaliação de Burrows, uma resposta duradoura exigiria compromissos fiscais franceses capazes de atravessar o calendário eleitoral.
Pressão sobre a renda fixa vai além da França
A Aberdeen Investments relaciona a pressão vendedora à combinação de energia mais cara, inflação persistente e fragilidades fiscais nos Estados Unidos, Reino Unido e França. Na análise reproduzida pela Funds Society, a gestora acrescenta que liquidações de posições alavancadas amplificaram os movimentos.
Giordano Lombardo, fundador e executivo da Plenisfer Investments, associa a pressão sobre os títulos ao avanço dos déficits públicos e ao financiamento, por dívida, dos investimentos em inteligência artificial. Para ele, esses fatores ampliam os riscos de estagflação e reforçam a atuação dos chamados “vigilantes dos títulos”.
A expressão descreve investidores que vendem títulos ou exigem remuneração maior quando perdem confiança na condução fiscal de um governo. O efeito pode criar uma pressão adicional pelo ajuste: quanto maior o custo para emitir e refinanciar dívida, menor o espaço do orçamento para outras despesas.
