A forte valorização da bolsa brasileira após o primeiro turno das eleições reforçou a visão positiva de casas internacionais para as ações do país. Nas análises distribuídas após a votação, UBS, Julius Baer e Franklin Templeton apontam fundamentos para uma continuidade do movimento, apoiados na expectativa de maior disciplina fiscal, redução dos juros e recuperação do interesse dos investidores por empresas ligadas à economia doméstica. A concretização desse cenário, porém, dependerá das propostas do próximo governo e de sua capacidade de executá-las.
O Ibovespa avançou 7,70% na segunda-feira, 5 de outubro, e encerrou o primeiro pregão após a eleição aos 206.911,89 pontos. A reação ocorreu depois de Flávio Bolsonaro terminar a primeira rodada à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, contrariando a vantagem do presidente apontada por parte das pesquisas. O movimento veio acompanhado de queda dos juros futuros e valorização do real.
O fluxo estrangeiro também ganhou força: investidores internacionais aportaram liquidamente R$ 10,06 bilhões em ações brasileiras naquele pregão, o maior saldo diário da série acompanhada pela Bloomberg desde 2008.
UBS vê potencial de alta superior a 30%
No relatório publicado antes da abertura do mercado de segunda-feira, o UBS passou a adotar como cenário-base um ajuste fiscal “mais profundo e duradouro”. Para a equipe, a maior probabilidade de mudança de governo, combinada à composição do novo Congresso, aumenta as chances de uma âncora fiscal crível, com controle de despesas, revisão de mecanismos de indexação e uma trajetória confiável de superávits primários.
“Acreditamos que as ações voltadas à economia doméstica, os juros locais e o real brasileiro — nessa ordem — deverão se beneficiar substancialmente de uma maior probabilidade desse cenário fiscal”, afirma o relatório, assinado por Alejo Czerwonko, Luciano Telo, Solange Srour, Ronaldo Patah e Debora Nogueira.
Na avaliação do UBS, o mercado brasileiro negociava a 8,7 vezes os lucros projetados, abaixo da média histórica de dez anos, de 9,7 vezes. Caso o cenário fiscal se confirme, esse múltiplo poderia se aproximar de 11,8 vezes.
“Combinado com juros reais menores influenciando as expectativas de lucro, isso poderia se traduzir em um potencial de alta superior a 30% para o índice nos próximos meses”, escreve a equipe.
A estimativa foi formulada antes do salto do pregão pós-eleitoral e, portanto, não corresponde a uma projeção de ganho adicional de 30% a partir das cotações posteriores ao rali.
Bancos, varejo, incorporadoras, utilities, educação, saúde e small caps aparecem entre os segmentos mais sensíveis a essa mudança. O UBS também identifica espaço para uma rotação das ações de petróleo para empresas ligadas à atividade doméstica.
“Se os ciclos eleitorais anteriores servirem de referência, a reprecificação das ações provavelmente se estenderia por todo o primeiro ano da nova administração, muito além do rali inicial após a eleição, à medida que as propostas de reformas avancem no Congresso e os mercados ganhem confiança na execução das políticas”, afirma o relatório.
Julius Baer mantém sobreponderação
O Julius Baer manteve sua recomendação de sobreponderação para ações brasileiras. Segundo Nenad Dinic, da área de estratégia de ações, o resultado eleitoral começou a resolver em favor da tese altista a assimetria entre risco e retorno identificada antes da votação.
“Mantemos nossa posição de sobreponderação. O perfil assimétrico de risco e retorno que identificamos antes do primeiro turno está começando a se resolver em favor de nossa tese altista, com uma vitória de Bolsonaro provavelmente favorecendo uma consolidação fiscal mais rápida, juros de longo prazo menores e um ciclo de flexibilização monetária mais acelerado”, afirma.
A combinação entre juros reais elevados e múltiplos baixos oferece, na leitura da casa, espaço relevante para uma reavaliação das ações.
“Com os juros reais atualmente em torno de 10% e as ações locais negociando a 8,7 vezes os lucros projetados, o potencial de reavaliação é substancial”, escreve Dinic.
O estrategista ressalta, entretanto, que a incerteza eleitoral deverá persistir até o segundo turno, em 25 de outubro. Os debates e os primeiros detalhes das propostas fiscais permanecerão no centro da atenção dos investidores.
Franklin Templeton reafirma visão positiva
A Franklin Templeton também reafirmou sua visão favorável para a renda variável brasileira. Larry Hatheway, diretor de Pesquisa do Franklin Templeton Institute, associa essa perspectiva às avaliações atrativas, ao crescimento dos lucros e à possibilidade de queda da inflação e dos rendimentos dos títulos.
“As avaliações atrativas das ações brasileiras e o crescimento dos lucros, juntamente com um contexto de prováveis quedas da inflação e dos rendimentos dos títulos, reafirmam nossa visão positiva sobre a renda variável brasileira”, afirma.
A leitura integra uma convicção mais ampla da instituição de que os investidores devem diversificar suas posições em ações para além dos Estados Unidos, incluindo mercados emergentes.
Na dívida brasileira em moeda local, Hatheway mantém uma avaliação favorável, mas adota maior cautela após a valorização dos ativos.
“A maior parte dos retornos que antecipávamos daqui até o fim do ano já se materializou. Portanto, embora continuemos positivos, agora estamos um pouco mais cautelosos em relação aos retornos futuros”, explica.
Aubrey destaca o dinheiro do investidor doméstico
Para Rob Brewis, diretor e gestor da Aubrey Capital Management, a composição do Congresso será importante para viabilizar reformas fiscais mais profundas.
“Uma reforma fiscal mais profunda precisaria de seu apoio, e esperaríamos que o Senado que assumirá no próximo ano seja mais aberto a isso do que o atual”, afirma.
Além do fluxo estrangeiro, Brewis destaca um possível motor doméstico para a bolsa. Com juros reais elevados, os investidores brasileiros tiveram poucos incentivos para deslocar recursos da renda fixa para ações. Uma mudança nesse quadro poderia ampliar a demanda pela classe.
“A história das ações brasileiras é doméstica. Os poupadores locais mantêm a maior parte de seu dinheiro em títulos de renda fixa e, com os juros reais tão elevados, houve poucos motivos para mudar”, diz.
“O teste é saber se haverá disciplina fiscal. Se houver e os juros caírem, acreditamos que mesmo uma migração modesta da renda fixa poderá, ao longo do tempo, representar um impulso significativo para as ações”, acrescenta.
Vontobel vê reprecificação além da bolsa
Thierry Larose, gestor e analista da Vontobel, identifica um movimento de alívio que alcança diferentes mercados. No comentário enviado após a reação inicial aos resultados, ele destacou a valorização superior a 4% do real frente ao dólar, a queda de mais de 100 pontos-base em rendimentos dos futuros de DI em relação ao fechamento de sexta-feira e o estreitamento dos spreads de crédito entre 20 e 25 pontos-base.
“A confiança dos investidores é impulsionada pelas expectativas de que o novo governo apresente rapidamente uma equipe econômica sólida, objetivos ambiciosos de ajuste fiscal e uma proposta de emenda constitucional pouco depois das eleições”, afirma.
A avaliação dá continuidade à leitura pré-eleitoral da Vontobel, que já identificava uma relação favorável entre risco e retorno nos títulos públicos prefixados.
“Segundo nossa avaliação, os rendimentos poderiam se comprimir consideravelmente mais em um cenário de vitória de Bolsonaro do que poderiam subir com uma reeleição de Lula. A nosso ver, isso gera um perfil de retorno e risco assimétrico muito atrativo”, apontava a casa.
Janus Henderson: mercado exigirá execução
Apesar da reação favorável, a Janus Henderson enfatiza que o resultado das urnas ainda precisa se traduzir em medidas econômicas concretas.
Thomas Haugaard, gestor da equipe de dívida de mercados emergentes em moeda forte, avalia que o primeiro turno aumentou a probabilidade de uma orientação mais favorável ao mercado. Contudo, as propostas fiscais detalhadas continuam limitadas.
“Nenhuma das duas campanhas forneceu ainda clareza suficiente sobre o ritmo, a composição ou a implementação política do ajuste”, afirma.
Para Haugaard, a credibilidade fiscal permanece como a principal variável de médio prazo. Um programa disciplinado poderia reduzir o prêmio de risco soberano, melhorar a dinâmica da dívida e favorecer entradas de capital.
“O mercado exigirá, em última instância, execução das políticas, e não simplesmente sinalização eleitoral”, ressalta.
Aberdeen cobra propostas críveis
Viktor Szabó, diretor de investimentos em renda fixa da Aberdeen Investments, também coloca a questão fiscal no centro da análise. Embora considere que a nova composição do Congresso poderá facilitar a formação de coalizões sob uma eventual presidência de Bolsonaro, ressalta que a disputa permanece aberta.
“Para os mercados, porém, a questão central continua sendo a perspectiva fiscal do Brasil, seu calcanhar de Aquiles há muito tempo”, afirma.
“Bolsonaro precisa agora demonstrar que as expectativas do mercado em relação a saldos primários mais sólidos e a uma reforma fiscal se apoiam em propostas críveis, e não em retórica eleitoral”, acrescenta.
Na avaliação de Szabó, os compromissos assumidos durante a campanha para o segundo turno terão mais importância para os mercados do que o impulso político inicial.
“As promessas e os compromissos que ambos os candidatos assumirem nas próximas três semanas terão mais importância do que o impulso político que ocupa as manchetes”, afirma.
Ebury alerta para a duração da “lua de mel”
No câmbio, Diego Barnuevo, analista sênior de mercados da Ebury, vê espaço para uma reação positiva dos ativos brasileiros diante da expectativa de consolidação fiscal.
“A surpresa do primeiro turno deverá se traduzir inicialmente em uma reação positiva dos ativos brasileiros, incluindo o real, apoiados pelas expectativas de uma consolidação fiscal mais agressiva e de um modelo de crescimento mais sustentável sob uma eventual presidência de Bolsonaro”, afirma.
A fintech considera, porém, que o peso das despesas obrigatórias limita a capacidade de executar cortes expressivos de gastos. Caso Bolsonaro vença, a atenção dos investidores deverá se deslocar para a composição do governo e a concretização dos compromissos fiscais.
“Os anúncios fiscais foram, até agora, notavelmente vagos. Qualquer decepção nesse terreno poderá encurtar rapidamente o período de lua de mel do real”, adverte Barnuevo.
Entre as casas internacionais, a expectativa de ajuste fiscal e juros menores sustenta a perspectiva favorável para os ativos brasileiros. A continuidade do movimento dependerá, contudo, da passagem das expectativas eleitorais para uma agenda econômica capaz de conquistar apoio político e produzir resultados.
