Lucas Klein, responsável por Renda Variável para EMEA e Ásia-Pacífico, e Marc Pinto, responsável por Renda Variável para as Américas, discutem como as incertezas em torno da expansão da inteligência artificial (IA) e dos conflitos geopolíticos podem permitir que os investidores aproveitem distorções de preços nesses e em outros temas ainda pouco valorizados, criando oportunidades para obter retornos acima do mercado.
Dois acontecimentos marcaram os mercados globais de renda variável em 2026: a continuidade — e talvez o fortalecimento surpreendente — da expansão da infraestrutura de inteligência artificial (IA) e o início das hostilidades no Oriente Médio. Como demonstram os diversos índices acionários que atingiram máximas históricas no segundo trimestre, o mercado tem abraçado amplamente o primeiro fator e minimizado o segundo, na expectativa de que o choque nos preços da energia seja de curta duração.
Diante da intensidade com que as ações vêm reagindo a esses acontecimentos, seria compreensível pensar que há pouco sentido em contrariar o consenso, buscando visões diferenciadas e específicas para empresas que vão contra a narrativa predominante. No entanto, acreditamos que a dinâmica atual dos mercados e das empresas é mais complexa do que aquela refletida nas manchetes. Afinal, é justamente em períodos de risco macroeconômico persistente e de operações aparentemente unidirecionais que os investidores podem aproveitar distorções de preços em temas ainda pouco valorizados e em ativos específicos, o que frequentemente cria oportunidades para gerar retornos acima do mercado no longo prazo.
É claro que a concentração do mercado e a inflação persistente são fatores que os investidores não podem ignorar. E nossa visão é mais cautelosa do que era há seis meses. Mas os mercados financeiros representam a soma de milhares de empresas e milhões de transações, absorvendo continuamente novas informações sobre o ambiente corporativo, econômico e geopolítico. Embora a incerteza tenha aumentado, entendemos que um cenário complexo e em rápida transformação cria oportunidades para que os investidores atuem de forma proativa, posicionando seus portfólios para o futuro.
A expansão da IA: de força em força
No fim de 2025, duas questões pairavam sobre o tema da inteligência artificial: a escala da expansão da infraestrutura estaria ocorrendo rápido demais? E quando as hyperscalers começariam a monetizar seus enormes investimentos? Seis meses depois, muitas dessas preocupações foram dissipadas. A demanda supera a oferta em todas as etapas da cadeia de valor da IA. Isso inclui filas de espera pelos processadores gráficos (GPUs) mais avançados e usuários finais disputando acesso aos modelos mais recentes das hyperscalers. Esse último movimento está impulsionando um crescimento das receitas superior ao esperado pela maioria dos analistas. O resultado é um dos ciclos de revisão positiva de lucros mais fortes das últimas décadas.
Gráfico 1: Revisões positivas dos lucros das ações
Ao contrário dos últimos três anos, quando as projeções de lucros foram revisadas para baixo mesmo nas categorias apresentadas abaixo — com exceção das Magnificent 7 —, as estimativas de lucros para 2026 foram significativamente revisadas para cima nos últimos cinco meses.

Source: Bloomberg, Janus Henderson Investors, as of 29 May 2026. U.S. large-cap growth represented by the Russell 1000 Growth Index; Semis represented by the S&P 500 Semiconductors Sub-Industry Index; Developed ex-U.S. represented by the MSCI EAFE Index.
A expansão das capacidades por trás da intensa demanda por esses modelos é sustentada por um conjunto de insumos técnicos mais amplo do que o esperado. No exemplo mais emblemático deste ano, demonstrou-se que a inferência em inteligência artificial exige um número de unidades centrais de processamento (CPUs) e chips de memória maior do que o mercado estimava, resultando em gargalos significativos para esses componentes. Essa constatação ocorre logo após a corrida das hyperscalers para garantir energia suficiente para abastecer seus data centers. À medida que os modelos de IA se tornam ainda mais sofisticados e se disseminam pela economia global, esperamos que novos gargalos surjam. Isso representa uma oportunidade para que os investidores utilizem conhecimento aprofundado dos setores para identificar essas restrições antecipadamente e posicionar seus portfólios de acordo.
Outro possível desdobramento relacionado à IA que merece atenção dos investidores é a repetição do tipo de disrupção que recentemente abalou a indústria de software. À medida que novos casos de uso forem aplicados a outros setores, esperamos que ocorram episódios semelhantes, já que a disrupção é o preço a ser pago pelos ganhos de produtividade prometidos pela IA. No entanto, assim como ocorreu no setor de software, uma vez reconhecida a possibilidade de disrupção, o mercado costuma reagir rapidamente, vendendo primeiro e fazendo perguntas depois. Essa lógica de “elevador para baixo e escada para cima” pode criar oportunidades em ações excessivamente penalizadas, cujos negócios subjacentes podem se mostrar resilientes ou até fortalecidos pela inteligência artificial.
A economia global já passou por períodos de profundas transformações tecnológicas, embora talvez não na escala ou na velocidade observadas com a IA. Neste estágio inicial, o movimento é liderado pelos facilitadores da IA — empresas de infraestrutura e desenvolvedoras de modelos. Os investidores aguardam evidências de que os ganhos de produtividade se traduzam em crescimento dos lucros em diferentes setores — por meio das empresas que potencializam a IA e, principalmente, dos usuários finais —, mas, no momento, qualquer expansão de margens ainda seria ofuscada pela histórica geração de receitas das hyperscalers de IA.
A longa sombra dos preços mais altos da energia
Um cessar-fogo frágil e os contratos futuros do petróleo Brent para o primeiro mês de vencimento cerca de 20% abaixo das máximas registradas durante a crise levaram muitos participantes do mercado a acreditar que os impactos econômicos do conflito no Oriente Médio serão de curta duração na maioria das regiões. Acreditamos que essa visão é excessivamente otimista. Mesmo que seja alcançado um cessar-fogo duradouro — algo ainda longe de ser garantido —, esperamos que os preços da energia e, consequentemente, a inflação global permaneçam elevados durante grande parte do restante do ano.
Os efeitos indiretos desse cenário seriam amplos. Em primeiro lugar, o consumo e as margens corporativas das regiões altamente dependentes da importação de energia sofreriam pressão. Europa e grande parte da Ásia lideram essa lista. Nos Estados Unidos, embora o consumo permaneça resiliente, já observamos sinais de pressão no segmento de menor poder aquisitivo. Com os preços da gasolina acima de US$ 4 por galão, cada dólar gasto para abastecer representa um dólar a menos disponível para outras categorias de consumo. Mesmo sem que o petróleo ultrapasse US$ 100 por barril, o efeito contínuo dos preços elevados dos combustíveis poderá pesar sobre os consumidores durante os importantes períodos de férias e de volta às aulas.
Gráfico 2: A inflação pressiona a zona do euro e os Estados Unidos
A duração da inflação impulsionada pelos preços da energia na zona do euro e nos Estados Unidos determinará, em grande medida, como os consumidores ajustarão seus padrões de consumo e quando — e em que intensidade — os respectivos bancos centrais dessas regiões precisarão reagir por meio de ajustes na política monetária.

Source: Bloomberg, Janus Henderson Investors, as of 8 June 2026.
A duração do período de preços elevados da energia provavelmente será o principal fator a determinar a trajetória futura da política monetária. No início do ano, a maioria dos principais bancos centrais caminhava para reduzir os juros a fim de apoiar uma economia em estágio avançado do ciclo. Agora, as estimativas implícitas pelo mercado indicam que o Banco da Inglaterra e o Banco Central Europeu poderão elevar as taxas de juros em até duas e três vezes, respectivamente, até o fim do ano. E, diante de seus mandatos de controle da inflação, terão de fazê-lo mesmo diante de perspectivas econômicas já enfraquecidas.
Embora os Estados Unidos talvez não precisem elevar os juros tão rapidamente — ou sequer fazê-lo —, é improvável que sua economia receba o impulso esperado de taxas de juros mais baixas. Isso não apenas reduziria a capacidade das famílias de se beneficiarem de menores custos de financiamento, como também enfraqueceria nossa expectativa anterior de uma ampliação da recuperação do mercado acionário, parcialmente baseada na ideia de que as empresas de pequena capitalização, normalmente mais alavancadas, seriam favorecidas por condições de financiamento mais atrativas.
Europa: um passo à frente, dois para trás…
Os juros mais elevados continuarão representando um obstáculo para a zona do euro. Outro desafio está no fato de que as reformas econômicas avançam mais lentamente do que o esperado. O atraso está concentrado nas reformas bancárias e regulatórias destinadas a tornar o mercado europeu mais competitivo.
Em contrapartida, por necessidade, o componente de defesa da iniciativa conhecida como banks and tanks continua avançando. Os principais países europeus, especialmente a Alemanha, reconhecem a necessidade de fortalecer suas capacidades de defesa, incluindo a produção doméstica de armamentos, e estão dispostos a ampliar os déficits fiscais para financiá-las. A continuidade da postura ambígua do governo Trump em relação à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) provavelmente fará da defesa europeia um tema estrutural, independentemente do desfecho do conflito na Ucrânia.
Grande parte de nossa visão anteriormente favorável sobre os mercados europeus baseava-se no potencial de reformas pró-negócios. Outro fator era o expressivo desconto com que as ações europeias vinham sendo negociadas em relação às americanas nos últimos anos. Esse desconto diminuiu consideravelmente nos últimos 18 meses, reduzindo o argumento de que apenas o valuation justificaria uma maior exposição ao mercado europeu.
Gráfico 3: Desconto das ações europeias em relação às ações dos Estados Unidos
Com o estreitamento do desconto de valuation da Europa em relação aos Estados Unidos, o próximo impulso para as ações do continente terá de vir de reformas pró-negócios concretas, e não apenas do argumento de que as ações estão baratas.

Source: Bloomberg, Janus Henderson Investors, as of 29 May 2026.
Ao analisar as condições econômicas da Europa de forma isolada — incluindo sua menor exposição ao tema da inteligência artificial (IA) —, pode-se concluir que as ações da região são negociadas com desconto em relação às dos Estados Unidos por um motivo. No entanto, essa análise desconsidera o fato de que uma parcela significativa dos lucros das empresas europeias provém das exportações ou das operações globais de multinacionais sediadas na Europa. Sob essa perspectiva, a exposição ao mercado europeu continua sendo uma forma viável de acessar temas de investimento atrativos e fluxos de receitas globais.
A China está encontrando seu rumo?
Após um longo período de desempenho fraco do mercado acionário e de sinais preocupantes na economia, a China começou a apresentar indícios de melhora. Parte dessa mudança decorre do fato de que o governo central vem gradualmente reduzindo a ênfase dada aos objetivos nacionais em detrimento das prioridades econômicas das empresas. Pequim volta a reconhecer que um setor privado menos limitado e atuando de acordo com seus próprios interesses comerciais pode fortalecer a economia do país e gerar melhores resultados sociais. Isso é particularmente evidente em áreas voltadas à inovação, como inteligência artificial, biotecnologia e veículos elétricos (EVs).
O país ainda precisa lidar com os efeitos persistentes da crise no mercado imobiliário, e a resposta tradicional do governo nessas situações costuma ser incentivar as exportações. Essa, de fato, faz parte da estratégia atual da China diante das tarifas impostas pelos Estados Unidos. Para compensar os efeitos das tarifas, as exportações aumentaram para outros mercados emergentes, onde parte dos componentes acaba chegando aos Estados Unidos em condições comerciais mais favoráveis. Um dos destaques do setor corporativo chinês continua sendo sua posição dominante nos segmentos de veículos elétricos e baterias, ambos já consolidados em diversos mercados ao redor do mundo.
Equilibrando fatores estruturais e cíclicos
Um mercado que continua renovando máximas históricas impulsionado por um pequeno grupo de empresas ligadas à inteligência artificial não é, por si só, motivo para adotar uma postura pessimista em relação às perspectivas das ações. Afinal, os ganhos deste ano estão fundamentados em fatores sólidos, especialmente nas revisões significativamente positivas das projeções de lucros. Ainda assim, o otimismo do mercado esconde um nível relevante de incerteza. Qual será o próximo setor a ser transformado pela IA? E como gestores corporativos — e investidores — reagirão? Embora já tenham ocorrido episódios mais expressivos no passado, resta saber como o mercado absorverá a fila de ofertas públicas iniciais (IPOs), incluindo as de grandes plataformas de inteligência artificial.
A inflação persistente e a possibilidade de uma política monetária mais restritiva representam obstáculos reais. É verdade que o mercado acionário dos Estados Unidos não reflete integralmente a economia do país — na qual o consumo tem peso muito maior —, mas a pressão provocada pelos preços elevados da energia poderá, eventualmente, afetar as decisões de compra até mesmo das famílias de maior renda. O consumo de alto padrão continua resiliente, mas, talvez refletindo possíveis mudanças no mercado de trabalho provocadas pela IA, resta saber se isso será suficiente para sustentar o crescimento da economia americana como um todo. Essas são questões que formuladores de políticas públicas e investidores precisarão acompanhar à medida que a inteligência artificial se torna cada vez mais presente.
Períodos de rápida transformação tecnológica inevitavelmente produzem vencedores e perdedores. Mesmo dentro do setor de tecnologia haverá ambos. O potencial analítico da inteligência artificial também poderá criar ainda mais vencedores na inovação em biotecnologia, à medida que os modelos forem capazes de enfrentar a complexidade das ciências médicas.
Ao longo do restante de 2026, o mercado terá de equilibrar duas forças opostas. De um lado, os possíveis impactos cíclicos de um conflito militar prolongado, da inflação e de taxas de juros mais elevadas poderão pesar sobre o crescimento econômico no curto prazo. De outro, o tema estrutural da inteligência artificial poderá confirmar sua promessa de atuar como um multiplicador da produtividade global. Nenhuma dessas tendências segue um caminho predeterminado e ambas provavelmente trarão acontecimentos inesperados e, consequentemente, episódios de volatilidade ao longo desse processo.
Definições e Notas de Rodapé
Consumer Price Index (CPI) is an unmanaged index representing the rate of inflation of the U.S. consumer prices as determined by the U.S. Department of Labor Statistics.
Dividend Yield is the weighted average dividend yield of the securities in the portfolio (including cash). The number is not intended to demonstrate income earned or distributions made by the portfolio.
Inflation: The rate at which the prices of goods and services are rising in an economy. The Consumer Price Index (CPI) and Retail Price Index (RPI) are two common measures.
The Magnificent 7 stocks include Alphabet, Amazon, Apple, Tesla, Meta Platforms, Microsoft, and NVIDIA.
Monetary Policy refers to the policies of a central bank, aimed at influencing the level of inflation and growth in an economy. It includes controlling interest rates and the supply of money.
MSCI EAFE® (Europe, Australasia, Far East) Index reflects the equity market performance of developed markets, excluding the U.S. and Canada.
Price-to-Earnings (P/E) Ratio measures share price compared to earnings per share for a stock or stocks in a portfolio.
Russell 1000® Growth Index reflects the performance of U.S. large-cap equities with higher price-to-book ratios and higher forecasted growth values.
S&P 500® Index reflects U.S. large-cap equity performance and represents broad U.S. equity market performance.
S&P 500 Semiconductors Sub-Industry Index® tracks the performance of the semiconductor and semiconductor equipment manufacturers listed on the S&P 500.
STOXX® Europe 600 Index represents large, mid and small capitalization companies across 17 countries in the European region.
Volatility is the rate and extent at which the price of a portfolio, security or index, moves up and down. If the price swings up and down with large movements, it has high volatility. If the price moves more slowly and to a lesser extent, it has lower volatility. The higher the volatility the higher the risk of the investment.
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